2016-09-23

Inépcia

Acho mesmo que a grande maioria dos conceitos em que costumávamos assentar as nossas (re)construções do real está esgotada, vazia de sentido. Talvez por isso pareça ser, tanta vez, uma época de crise e caos: nem temos sequer as palavras certas para dizer o nosso mundo. Talvez seja necessário inventar um glossário novo até para a nossa rebeldia, ainda que mais por inépcia e comodismo do que propriamente por convicção.

2016-09-20

Salvem os ricos?

Ainda estou indignada com a tal treta dos direitos dos ricos. A pensar na geração dos € 1000 que nunca saiu dos € 1000 e agora até se acha cheia de sorte. E a pensar como para todos os outros sobra apenas o resto. Quando o resto já não chegar, será que ainda teremos forças para fazer o tal manguito?

2016-08-25

Itália

Enquanto o norte da Europa nos virava as costas (mais uma vez) durante os terríveis incêndios que dizimaram Portugal, a Itália mandou um Canadair. Pode não parecer muito, mas foi mais do que quase todos. O meu coração hoje está com "i nostri fratelli" :-(

2016-08-24

A Voz faz anos



Um dia cheguei a casa e criei um blogue. Ou melhor, comecei a criar um blogue... 

Foi em 2004 e ainda cá estou. 

Por pura teimosia.

2016-08-22

Uma lua tipo farol

Ainda fui à janela tentar perceber qual era o idiota do meu vizinho que estava de luz acesa. A idiota era eu :/

2016-08-16

Toda a vida



Irrita-me esta mania moderna de qualificar o óbvio. Mesmo quando não é óbvio. Porque devia ser óbvio.

2016-08-09

Dos extremismos

Um dos principais saltos qualitativos da espécie humana foi a capacidade de se desprender do tempo presente, recordando o passado e imaginando o futuro. E, ao fazê-lo, inventar essa capacidade mágica de acreditar: acreditar na “coisa” apenas imaginada, para depois dar-lhe forma; acreditar que há uma ordem implícita nos acontecimentos aparentemente fortuitos e que, por isso, podes acreditar que o sol volta a nascer amanhã, que uma determinada estrela volta a um determinado ponto do céu, que voltou a ser hora de semear. 

Esta capacidade de acreditar no que não está lá, não existe ainda, é um acto de fé. É que fé, tal como a estou a utilizar no que escrevo, remete apenas para o "fide" do latim, i.e., confiança. A confiança de que algo é possível, pode acontecer. Não tem nada a ver com religião organizada e padronizada. Tem a ver com o que somos. E, do que somos, conhecemos ainda tão pouco, que me iriso sempre quando alguém começa a falar apenas em factos. Porque até os factos precisam da imaginação e, sendo que usamos uma ínfima parte da capacidade do nosso gigantesco cérebro, quem nos garante que os factos até hoje conhecidos chegam? E por que ser tão afoito em mandar o desconhecido para a franja do paranormal? Mesmo que eu não acredite que uma prece possa levar a uma cura, porque não aceitar que a vontade de cura de alguém e a sua necessidade de acreditar que vai ficar curada, não dão origem a um qualquer processo que resulta numa cura real? Para quem como eu não sabe acreditar assim, será sempre necessário descobrir o facto que deu origem ao resultado. Quem acredita chama-lhe apenas milagre. E esses acontecem de facto a toda a hora. 

Somos, todos nós, tão diferentes e tão improváveis, sabemos tão pouco… Mas escolhemos acreditar. Seja em que for. E, por esse simples acto  conseguimos desprender-nos da condição de ser sem passado nem futuro, incapaz de se imaginar como parte de uma grande estrutura, para lá da manada de búfalos a caçar, ou da árvore com os frutos mais maduros. Por tudo isto, não confundo de forma alguma o direito a acreditar na obrigação de acreditar num Deus que outros desenharam por medida. E por tudo isto ando tão horrorizada com as vozes e actos de extremismo religioso.

2016-08-04

Palavras interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto 
encostado ao rosto dos navios. 
Sem nenhum destino flutuam nas cidades, 
partem no vento, regressam nos rios. 

Na areia branca, onde o tempo começa, 
uma criança passa de costas para o mar. 
Anoitece. Não há dúvida, anoitece. 
É preciso partir, é preciso ficar. 

Os hospitais cobrem-se de cinza. 
Ondas de sombra quebram nas esquinas. 
Amo-te... E entram pela janela 
as primeiras luzes das colinas. 

As palavras que te envio são interditas 
até, meu amor, pelo halo das searas; 
se alguma regressasse, nem já reconhecia 
o teu nome nas suas curvas claras. 

Dói-me esta água, este ar que se respira, 
dói-me esta solidão de pedra escura, 
estas mãos nocturnas onde aperto 
os meus dias quebrados na cintura. 

E a noite cresce apaixonadamente. 
Nas suas margens nuas, desoladas, 
cada homem tem apenas para dar 
um horizonte de cidades bombardeadas. 

Eugénio de Andrade - Palavras Interditas, in Poesia e Prosa

2016-08-02

WTF?


Provavelmente estou demasiado velha para perceber o encanto da coisa. Um bom sofá e uma bebida fresca e fico feliz...

2016-07-31

Lua



Jazendo só havia dois corpos cansados, iluminados por uma lua breve, brevíssima, no negro do céu. Nem estrelas, nem constelações. Só uma lua amarelo-torrado e o calor da noite, esfumado, e um dedo que percorria ainda o reverso de um joelho.

2016-07-26

Anticorpos



Sobreviver não é bonito, nem tem de ser bonito. Pode ser degradante, malcheiroso, indigno. E pode também ser um espectáculo. Nos jornais e telejornais, a desgraça já é parangona há demasiado tempo. Tanto tempo que as pessoas já começaram a desenvolver anticorpos a essa desgraça demasiado evidente. Os media arcaicos tratarão de fornecer o circo e o pão de alguma maneira, sabendo que o espectáculo iníquo da sobrevivência alheia tem sempre público fiel. Os novos meios seguem-lhe os exemplos. E sobram os corpos decepados das vítimas, num qualquer vídeo novo onde se vê cada vez mais um bocadinho do pesadelo e dos corpos irreconhecíveis, se tiverem um qualquer brinquedo ao lado ainda melhor. A janelinha para o mundo transformada em caixinha dos horrores... :-(