Há dias em que dou por mim a fazer inventário. Não das contas por pagar, nem das tarefas que se acumulam na secretária. Faço inventário das outras coisas: dos brilhos nos olhos que apanhei pelo caminho, dos sorrisos que quase chegaram a gargalhadas, das conversas que se demoraram na memória.
Coleciono esses restos de alegria com o cuidado de quem sabe que são frágeis. Talvez porque tenho medo das sombras. Talvez porque alguns sonhos, quando se aproximam demasiado, assustam mais do que confortam. Talvez porque a rotina tenha esta estranha capacidade de gastar as pessoas devagar, sem barulho.
Durante muito tempo achei que era uma colecionadora de pequenos instantes felizes. Hoje suspeito que não. Uma coleção escolhe-se, procura-se, organiza-se. Isto é diferente.
São os pedaços que resistem ao desgaste. O que fica depois de mais um dia igual aos outros. O que sobra depois de a vida passar a lixa fina sobre os entusiasmos, as expectativas e as certezas. Sobra sempre qualquer coisa. Nunca sei bem o que é.