2026-06-02

Crédito mal parado

Fui muitas coisas na vida. Subestimada foi sempre a mais rentável.

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Há uma suspeita que recai sobre quem ri de si próprio. Como se a gargalhada fosse uma confissão: leveza a mais, profundidade a menos. Como se só os bobos da corte se permitissem o luxo de ser ridículos.

Conheço essa suspeita. É feita da mesma matéria que o paternalismo.  

O que essa gente ignora é que o bobo da corte era o único a quem deixavam dizer a verdade. Que a máscara resulta precisamente porque ninguém a vê como máscara. Que há uma vantagem considerável em ser constantemente subestimado.

Aceito esse crédito com todo o prazer. Por vezes até o cultivo.

A surpresa deles, quando chega, é genuína. A minha, não.

O preconceito alheio é o lado para que durmo melhor.

2026-06-01

A sombra do pastor



Disseram-lhe para ter medo do lobo. Ela obedeceu. Toda a vida a olhar para a floresta, a tremer ao menor ruído, a agradecer a cerca, o cajado, a mão que lhe dava de comer.

Nunca percebeu que a cerca era para ela não sair. Que o cajado servia para a dirigir. Que a mão que alimenta também é a que degola.

O lobo, pelo menos, é honesto quanto às suas intenções.

O pastor sorri.