2011-04-25

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«Os jovens capitães de Abril possuem uma dimensão de coragem adveniente da espessura comovente do seu humanismo. Há qualquer coisa de épico e de poético na arrancada militar desse dia tão longínquo, tão próximo e tão delido no tempo e no esquecimento dos nossos desleixos. "O dia inicial inteiro e limpo", como lindamente lhe chamou Sophia, era o dia esperado pelos melhores de nós. E os melhores de nós desanimavam de o conhecer quando um grupo de homens muito novos nos convidou a ressurgir.»

Baptista Bastos


Qualquer Nação que não se olha de forma completa, quer para o bem, quer para o mal, nunca terá um retrato real do que foi, do que é e do que quer ser no futuro. Não, eu não entendo mesmo para que serve uma memória amputada, em que até os simples cravos são convenientemente esquecidos, como se resumidos ao direito de serem empunhados pelos que estão à esquerda da barricada política e mero engulho esquecido para os que se quedam à direita. E o próprio ícone deixa de ser capaz de medir - e homenagear - o sentido mais profundo do golpe de estado que se tornou revolução. Termos hoje uma democracia anémica e desacreditada não deveria ser o bastante para esquecermos que, naquela madrugada, jovens capitães arriscaram tudo e, no dia seguinte, as gentes juntaram-se nas praças e nas ruas e, em vez de armas e balas, pintaram o dia de flores. E antes uma pobre democracia do que democracia alguma. Especialmente uma que nasceu, não de sangue derramado, mas de um sentido profundo de alegria e esperança consubstanciadas numa flor rubra. É que hoje, como então, estamos à espera que nos convidem a ressurgir, mas para isso é preciso lembrar - e simbolizar - como foi.

4 comentários:

pé-de-cereja disse...

Apoiadíssimo!
O facto de se estar a viver neste momento um período tão sombrio, não pode nem deve 'conspurcar' o que foi um momento belíssimo de coragem e confiança. Dos capitães que arriscaram imenso, e do povo que saiu para as ruas e as entupio, e com essa atitude também muito corajosa, bloqueou o hipotético contra ataque porque as forças do Estado Novo não podiam passar. Como se pode esquecer tudo isso?

Hipatia disse...

Não sei como podem esquecer ou então preferirem não lembrar. Mas quando até Otelo se farta de dizer disparates elogiosos a Salazar ou a morte de Vítor Alves foi preterida pelo espectáculo mediático da prisão do puto que cortou o caralho ao outro, então até consigo perceber - mesmo não querendo - porque se vai esquecendo. Mas não admito que políticos só eleitos porque há - ainda que debilitada - uma democracia em Portugal, insistam em esquecer-se do cravo vermelho à lapela.

dumb witness disse...

Muitos políticos optam por não usar o cravo à lapela porque grande parte do povo insiste em situar esse momento de liberdade num passado remetido a livro de história. Não compreendo como passados 30 anos-tão pouco tempo-voltámos a essa calma cinzenta.
A esse universo dividido entre senhores doutores e campónios.É triste pensar que enquanto comunidade (honrosas excepções) não valemos a ponta de um corno. E não fizemos por merecer o risco porque que alguns passaram naquela manhã de Abril.

Hipatia disse...

Acho que ainda é pior do que isso: é como se fosse feudo de uma ou outra cor política - a mais das vezes uma cor hoje apenas tingida de teias de aranha e visões do mundo de utopia em que já nem os utópicos conseguem acreditar - e há uns outros quantos que, agora que já passaram tantos anos, já nem têm vergonha em assumirem a sua qualidade de fascistas retornados para meterem - hoje à conta da democracia como antes o tinha sido à conta do Estado Novo - a mão ao tacho do desgoverno que é este País. Pelo meio, devia estar o povo (esse mesmo povo cada vez mais alheado dos políticos-classe que nos sobram) e esse, sim, tem memória curta e nem os livros da história sabe consultar. Senão, como se compreender que repise sistematicamente o mesmo erro alternado?