2006-12-05

Lastro


Sigmar Polke - Woman at the mirror


Com o passar do tempo, vamos acumulando demasiado lastro, demasiadas contas, demasiadas responsabilidades, demasiadas histórias, demasiados vícios...

Como se a sofreguidão com que tentamos viver não chegasse nunca e a insatisfação se acolitasse na sombra à espera. E pode ser qualquer coisa a confrontar-nos.

Presto atenção aos sinais e estes só me dizem como aprendi a descartar o simples, enfeitando tudo de elaborações mais ou menos complexas. Na ânsia de me proteger da vida, descubro-me quase incapaz de viver. E apenas partilho jogos, cada vez mais insatisfatórias, cada vez mais ritual sem conteúdo. E o jogo nunca é apenas meu. Estou a ficar demasiado velha para tanta espera e já nem é tanto o corpo cansado: é a alma que se enrodilha e encarquilha. O pior é que, do outro lado, vejo apenas os mesmos medos.

13 comentários:

lilla mig disse...

Que forma bonita de expor o problema. Gosto muito da tua forma de escrever! :)

maria_arvore disse...

É complicado viver sem criar vícios.
De modo que, ou guardamos dentro de nós aquele miúdo que não se importa de constantemente construir novos castelos com o Lego ;)ou não conseguimos dar um passo ajoujados ao peso de tanta vida vivida.
(ou então, eu não sei crescer ;) )

TheOldMan disse...

Faz como eu, Hipatia.

Não há como uma boa "mudança de residência" para resolver isso. Por exemplo, cada vez que me mudo, "perco" os papeis do IRS e outras coisinhas que andem por lá a mais...

;-)

Anónimo disse...

Tenho medo dessa alma que se enrodilha e se encarquilha. Este foi sempre o meu medo, Hipatia e tentei sempre fugir dele.
Beijinho

Hipatia disse...

Benditos 500 euros que te fizeram regressar, Lilla :))) Estava com tantas saudades! Isto é o quê? Uma prenda de Natal antecipada?

Beijinho

Hipatia disse...

Sabes, Maria Árvore, fui criada com rapazes. E sempre fui bastante arrapazada. Parece que agora tenho um ar mais feminino e coisa e tal... talvez seja das brancas que vão aparecendo... Mas há tanta coisa em que não me identifico com o pensamento reinante das mulheres e os seus cremes e as carteiras e as cuecas e os sapatos e o cabelo e raio que as parta. Mas sempre gostei de legos. E de carrinhos de rolamentos. E de trepar às árvores... O pior é que agora tenho de pensar sempre quanto me custa montar cada peça (o subsídio de Natal até já tem destino para um sofá novo) e custa-me destruir seja o que for; e os carrinhos de rolamentos agora precisam de airbags e já não são travados só à força de sola ou pedante descalço; e trepar às árvores é que já não mesmo: pesa-me demais o cu.

Deve ser por isso que refilo tanto. Enquanto refilar, ainda me agarro a um pedacinho do eu que fui para não me perder de mim.

Hipatia disse...

Ando a fazer arrumações à casa, Old Man. E é tanto papel já sem valia e tanto treco a ocupar espaço... acho que estava mesmo a precisar de uma dessas "mudanças de residência"...

Hipatia disse...

Também eu, Marta. Mas há dias em que damos com ele pespegado no espelho. E dá um medo do caraças!

maria_arvore disse...

Hipatia,
então refila a plenos pulmões para que ninguém duvide que está a ouvir a tua voz. Tudo menos calçar as pantufas!:)

E já que o meu curriculum parece decalcado do teu, lembras-te daqueles canudos de plástico para soprar rolinhos de papel com alfinete na ponta?... Sopra com a voz e a escrita, que dar umas alfinetadas alivia muito. :)))

deep disse...

Por vezes, desfazermo-nos de coisas materiais ajuda, embora, é óbvio não resolva os problemas da alma. Ultimamente dou comigo a pensar que tenho coisas a mais, que atrapalham, que enchem gavetas, que ganham pó...

Hipatia disse...

Eu refilo, Maria Árvore. Passo a vida a refilar. E não estivesse outra vez tão afónica, mais alto refilava ainda :))

(ui, do que me foste lembrar! houve uma altura em que fiquei "retida" durante vários intervalos em cima de um escadote a limpar o tecto da sala de aula por ser muito bem comportada com esses rolinhos)

Hipatia disse...

Não estás bem a ver a quantidade de lixo que acartei para os contentores nos últimos dias, Deep. Era lixo e nele foi memória. Mas há alturas para deitar fora o entulho. E os móveis também andaram a dançar :) Estou à procura de dias novos...

Anónimo disse...

Mais Vozes

"la décadance"
ela anda a partir pedra e eu n | Homepage | 12.06.06 - 10:07 am | #

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Os chineses dizem que atraves do sofrimento e' que se alcanca a felicidade. Suponho que um caminho de pedras muitas vezes conduz a um calmo lago, com multiplos reflexos e margens verdejantes... Nunca se sabe, por isso, vai andando em frente

Queen of Hearts | 12.06.06 - 10:37 am | #

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So um "bad hair day", espero
Hipatia | Homepage | 12.06.06 - 8:08 pm | #

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Olá Queen of Hearts

Uma coisa parece-me certa: nunca saberei tanto como no dia em que esteja para deixar de saber em definitivo. E eu, apesar de tudo, gosto ainda de olhar para o lado do horizonte
Hipatia | Homepage | 12.06.06 - 8:10 pm | #

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la décadance de gainsbourg .....
ela anda a partir pedra e eu n | Homepage | 12.08.06 - 6:42 pm | #

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Ah!!!
Hipatia | Homepage | 12.10.06 - 6:08 am | #