2009-06-01

Apre!

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«Ministério dos Negócios Estrangeiros avançou que se equivocou quando anunciou que havia um cidadão português no voo da Air France desaparecido esta segunda-feira. O português estaria na lista de voo mas não chegou a embarcar. Também na lista divulgada por um porta-voz da companhia aérea francesa não consta qualquer cidadão luso.»

in, JN



Não há cu para a parvoíce do "felizmente não havia nenhum português". Um português qualquer, nem importa bem qual, para podermos ter a televisão a sangrar durante horas. Podia ser um qualquer filho da puta – ladrão, pedófilo, salafrário de qualquer espécie – se fosse português já estava bem. Assim, como os outros duzentos e tal desgraçados – crianças incluídas – não eram portuguesas, já não há mal em terem desaparecido e estarem todos provavelmente mortos. "Felizmente o português que era para embarcar não embarcou. Felizmente! Felizmente só morreram dos outros." Poupem-me!

13 comentários:

King disse...

Exactamente!
Uma pessoa fica parva. Com um desastre deste tamanho, são pessoas caramba, para além da nacionalidade.
«Felizmente»????

Hipatia disse...

O "felizmente" foi como a situação foi posta na "peça jornalística" que vim a ouvir no regresso a casa. Acho que era na Rádio Comercial. Mas fosse onde fosse: este é o tipo de comentário absurdo que, nestas situações, não deixa de me chocar de todas as vezes que acontece.

Maria disse...

A sic também a colocou assim, estão todos ou quase todos formatados nesse modelo-o frenesim de preencher as "peças jornalísticas" (de nada) não deixa espaço para reflecção.

Emiele disse...

É esse modo de por as coisas (quanto-mais-sangue-melhor) que faz com que a maioria dos noticiários parecem 'programados' em formato tablóide, digamos assim.
Eu não ouvi a rádio, mas frequentemente temos 'apartes' desse tipo quer na TV quer em jornais.
A sensibilidade não é o forte do jornalismo de hoje (algum...)

I. disse...

É nestas coisitas que se vê como somos (vá, a comunicação social é)provincianos. Que mesquinhês!
Conversa de merda, é o que é.

E a cena do avião, arrepiante não se lhe encontrar nem rasto. Horrível.

Hipatia disse...

Eu quase não vejo televisão, Maria, mas não me espanta. É um mal generalizado e já quase um tique do jornalismo que temos: explorar à exaustão o fácil e/ou o sentimentalóide, em lugar de expor factos sem julgamentos morais.

Hipatia disse...

Até que ponto este jornalismo tablóide não é só um reflexo da sociedade em que nos vamos transformando? Hoje, apenas conta o nosso umbigo, Emiele. Um umbigo português. Assim, com base nesta nota simplista, é fácil solicitar e promover uma identificação também ela simplista. O pior é que, cada vez mais, não sei onde fica um humanismo geral, em que pessoas são pessoas, sem importar de onde vêm, de que raça são, qual o credo. É como quando há problemas nos bairros sociais, por exemplo: reparaste no à vontade com que era mencionado o facto de serem negros e ciganos?

Hipatia disse...

Não é só a comunicação social, I. É generalizado. A comunicação social parece ser apenas o sinal mais visível. E as tragédias são só fait-divers; só a notícia bombástica vende. E vamos ficando calejados contra a tragédia, servida a qualquer hora (já nem é só ao jantar) de maneira a que a indiferença vá alastrando até que já quase nada pareça indigno.

_ba_ disse...

Tu até parece que não sabes o País que tem lol
É triste mas como não havia nenhum Português que raio é que interessa terem morrido 200 pessoas? Que raio interessa que os familiares e/ou amigos estivessem à espera e que eles nunca tenham chegado?
Afinal de contas nenhum era "Tuga"...enfim nem te devias "cansar a tua beleza" com este tipo de coisas tão tacanhas: é o País que temos infelizmente bah
(só assim posso compreender que um juíz diga que a Alexandra tem a Mãe possível e outras pérolas que nem vale a pena aqui reproduzir)

deep disse...

Já alguém o escreveu aqui: somo mesmo provincianos, pequeninos. Uma vida vale por si. Se tivesse morrido uma pessoa, já seria uma tragédia.

O que eu também não suporto é que se explore mediaticamente o sofrimento dos familiares.

Hipatia disse...

Mas tu conheces-me há anos suficientes para saberes como me passo com estas coisas. Todas as coisas. Todos estes absurdos generalizados, da política ao futebol, da justiça ao jornalismo, passando pelo ensino e pela saúde. E contra a sociedade que tudo vai engolindo, cada vez mais anestesiada, mais comatosa, tanto que lhe tentam dar cada vez mais pão e circo, a ver se ainda reage, a ver se ainda há reacção possível. Mas aquele "felizmente"... Estivesse algum daqueles supostos jornalistas perto de mim, sabes bem onde é que os tinha mandado meter o felizmente, não sabes? ;-)

Hipatia disse...

O problema, Deep, é que nunca nenhuma vida tem valor realmente idêntico a outra quando vista pelo prisma de valores que vai enformando estas notícias. E é que já nem é o cão a morder o homem ou o homem a morder o cão; é mais do que isso: é quase como se fossem homens transformados em matilhas. Havendo sangue, ou tragédia, ou uma hecatombe, tanto melhor. E sabes o que acho realmente? Acho que estavam à espera que morressem dois ou três portugueses. Ai, sim, seria o frisson total, com reportagens de manhã à noite e entrevistas ao padre da aldeia, à dona da padaria e ao polícia de trânsito que uma vez passou uma multa e, com um bocado de sorte, a culpa até era do Governo.

Anónimo disse...

Mais Vozes

Felizmente para aquele português. Felizmente para ele. Mas é ele que tem de pensar nisso.
felizmente não havia nenhum português? o sensacionalismo tem destas coisas... parece que já não se consegue fazer jornalismo sem isso...
fabulosa | Homepage | 06.02.09 - 10:47 am | #

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Pois parece. E até que ponto o povinho ainda reage às notícias sem isso?
Hipatia | Homepage | 06.02.09 - 2:17 pm | #