2010-09-27

No canto do bar

aqui


Cobraram-me hoje um comentário sobre os gajos nas bordas dos quarenta que, de um momento para o outro, se vêem sozinhos, estranhando que os encarasse com um certo tom de dó. E, no entanto, é assunto de que já falei num post (na sua caixa de comentários, melhor dizendo) e, por isso, me limito a retomar.

É que eu acredito mesmo que não há nada mais infeliz e inábil do que um homem que se apanha de repente sozinho, de casa vazia, a ver os filhos com fins-de-semana contados e o medo da velhice a bater-lhe à porta, inseguro da barriguinha que não há ginásio que abata, a ver o canal de publicidade pela noite dentro e a comprar todos os "gadgets" que fazem abdominais por medida. E que não podem apregoar a solidão e a tristeza, que nunca se souberam permitir a aparência de fracos e aguentam as palmadas nas costas dos outros gajos, os "agora é que estás bem" e a afins, sem nem sequer saberem bem (ou não acreditando) como de repente o mundo de anos entrou em derrocada e não há mais ali ao lado a pessoa que ouvia o bom e o mau, tinha o jantar pronto a horas e restantes horários estruturantes, mais os putos a qualquer momento e as contas em dia e os programas marcados sem ter de pensar o que há para fazer a seguir. E foi-se ainda a casa, o seu território, o seu reino. E engolem, vão engolindo, saltitando de miúda em miúda e de carro em carro e agradecendo mas evitando os jantares em casa dos amigos que ainda estão casados e aparentemente felizes, preferindo antes um canto de um qualquer balcão de um qualquer bar e talvez um engate de ocasião para ver se ainda estão vivos. E é por isso que eu não acho que um homem habituado a família seja capaz de sobreviver bem sozinho, ou lidar com as emoções decorrentes. Ou sequer que consiga encontrar com a mesma facilidade que uma mulher um ombro solidário onde desabafar. É que nenhum gajo atura muito tempo um amigo infeliz; vai-lhe apresentar umas gajas e tentar passar em frente o problema, esperando o regresso do velho tipo que falava da bola e de política e das gajas que, podendo, havia de comer. As tais gajas que, agora, mesmo podendo, não come.

Um homem em luto de uma relação é uma caricatura dele mesmo, até nos excessos. E deve ser por isso que, num repente, estão casados outra vez. Não necessariamente felizes, mas pelo menos não tão assustados e sozinhos, novamente senhores de um pequeno território onde tentam encontrar o seu quinhão de sentido e, com sorte, uma certa medida de contentamento.

10 comentários:

deep disse...

E está, a meu ver, em parte explicado por que motivo quando voltam a casar preferem mulheres muito mais novas. As mulheres da idade deles, se viveram sozinhas até então e sobreviveram, não vão querer perder o território delas. :)

Paulo Abreu e Lima disse...

Foste lesta na boa cobrança :)
Olha, estive a rever o tal post (o teu link está incorrecto), e respectivas respostas, assim como li atentamente este post e tresleio nos três locais um preconceito que não entendo, não vejo, desconheço! Os meus amigos divorciados (vamos chamar-lhes assim) são, intima e genuinamente, pessoas aliviadas, que vêem a vida sorrir-lhes mais do que uma vez, que facilmente detectam o potencial da coisa e dele fazem uso e abuso com a opulência dos quarenta e o gozo dos vinte. Exercitam ao limite aquela velha vontade: "Quem me dera ter menos vinte anos e saber o que sei hoje...!". Sem grandes sacrifícios, rejuvenecem fisicamente, emagrecendo (na falta da leoa, vai o próprio leão à caça...), remoçando-se (começam a comprar os primeiros hidratantes das suas vidas), retirando do possível silêncio todas as respostas mal resolvidas de há vinte anos atrás, ou seja, sabem exactamente aquilo que não querem dali em diante. Da realidade que conheço, também nunca vi mulheres exclusivas donas-de-casa: se o trabalho era antes partilhado, agora fica a cargo da senhora mãe dos meninos e em vez do desgaste das contas diárias, remetem um único cheque mensal de quantia fixa (entre os que pagam, mas isso já é outra conversa...). De tal forma assim é, que têm muito mais tempo para engendrarem um novo posicionamento perante a sua vida (casando, juntando-se, ou ficando sós) do que vós, as mulheres, desgraçadas escravas dos apêndices procriados que se vos grudam que nem lapas. Esta, sim, é a realidade que conheço.

I. disse...

Ó Paulo, olha que há por aí muito homem a quem dá a crise de meia idade (cada vez mais cedo, já vi uma, ao vivo e a cores, que atacou antes dos 35), que de repente decide que precisa de espaço, de liberdade, de viver, e nem um ano depois lá estão eles atracados a uma sopeirinha que lhes dá o jantarinho a horas e prega os botões na camisa (visto, também, ao vivo e a cores).


Também já vi muita divorciada a remoçar. Mesmo com filharada atracada. Outras parece que enviuvaram, e vivem na tristeza da perda do macho e certeza que ninguém já lhes pega. Há de tudo, isso há, mas olha que basta ir para as Docas num fim de semana à noite para se ver a parada de cinquentões com bimbalhonas loiras (falsas) com idade para serem filhas deles. (nunca mais fui para as Docas, jasus, que mal frequentado)

I. disse...

E digo mais: se o tal ser a quem deu a crise de meia idade me visse hoje, nem me reconhecia. Estou beeeem melhor, e ele, segundo ouvi a umas más línguas, gordo e careca. Mas tem uma sopeirinha que não lhe deve dar o trabalho que eu dava, isso tem, amén.

TheOldMan disse...

É preciso de tudo para fazer um mundo, Hipatia.

Esses exemplares, normalmente são declarados nos impressos da Segurança Social como "dependentes"...

;-))

TheOldMan disse...

Já agora, dá um jeito ao 2º link que tem o endereço duplicado.

;-)

Hipatia disse...

Deep, amiga, esse teu comentário dava todo um post :D

Hipatia disse...

Olha ali em cima a Deep, Paulo. Estás a ver a que se resume quase sempre tanta liberdade, tanto creme, tanto rejuvenescimento (e só agora porquê? e porque precisam parecer tão parvos atrás do creme novo e das calças de tons pastel?) ao fim de uns meses? Uma fedelha com metade da idade e, quase sempre, nem metade da mulher que antes tinham. Mas é desses excessos mesmo que falo e são esses mesmo que acho tristes. E talvez seja porque nunca fui homem nem casado, mas fui criada com homens e trabalho de meio de homens e muitos dos meus amigos são homens também. Já vi tudo o que relatas, até esses que se esquecem que são pais e resumem a paternidade a um cheque mensal (queres mais triste do que isso?); como sei que, melhor ou pior, em caso de divórcio a mulher acaba rodeada de amigas (por mais falsas) e pode falar e chorar e desabafar e tem ali uma frente unida contra o "todos os homens são filhos da puta"); ao gajo sobre um ou dois amigos e só a ex pode ser cabra e isto se não estiver a dar o benfica. Apanha um desses que passam a imagem do "agora é que eu estou bem" a jeito e fá-lo falar. Mas a falar a sério, sem medo de lágrimas e sentimentos e estereótipos; ou ouve uma conversa desse gajo com a melhor amiga. E vais ver um luto inábil e triste. Depois passa, claro. Afinal, tudo passa, mesmo quando não é bonito.

Hipatia disse...

É, também há dessas gajas que parece que perderam o mundo todo, I. São quase sempre as “cônjuge”, assim uma coisa sem sal que há muito se esqueceu de ser mulher e se limita a figura de corpo presente com o mesmo entusiasmo de uma dissertação sobre direito administrativo.

(e amén pois! ...issa!)

Hipatia disse...

A questão é que uma relação duradoura é, forçosamente, uma relação de dependência; com sorte, de interdependência. Mas, depois, quando o tapete foge de debaixo dos pés, sobra muitas vezes apenas um agarrado com síndrome de privação :D

E já está o link certo. Acho…