Há coisas que não deviam ser consumidas em massa. A morte, certamente, merecia maior pudor.
Não digo que devêssemos fechar os olhos ao horror. Há mortes que precisam de ser notícia. Há crimes que precisam de ser denunciados. Mas há uma diferença entre informar e consumir. E tenho a sensação de que já não sabemos onde acaba uma coisa e começa a outra.
Acontece uma tragédia e, em poucas horas, sabemos o nome do morto, o nome do assassino, a cara do assassino, a cara da vítima, a sua infância, os seus vizinhos, o que publicou há sete anos numa rede social e, se houver tempo, até a marca dos sapatos que usava no dia.
Depois vêm os comentadores. Depois vêm os especialistas. Depois vêm as reconstituições. Depois vêm os vídeos em loop. Depois vêm as imagens que ninguém precisava de ver pela décima vez, mas que alguém decidiu que precisávamos de ver porque a audiência também precisa de ser alimentada.
E, no meio disto tudo, há uma família a escolher que fotografia levar para o velório, enquanto nós escolhemos que vídeo partilhar.
É aqui que me pergunto: onde termina o que é notícia e onde começa o que já é espetáculo?
Porque há uma perversidade particular em certos actos de terrorismo: não basta matar. É preciso ser visto. É preciso ocupar espaço, provocar medo, entrar na cabeça de milhões de pessoas.
E nós, com a nossa infinita disponibilidade para olhar, acabamos por entregar exactamente aquilo que era pretendido: uma audiência, um nome, uma narrativa. Os minutos de antena que talvez fossem parte do prémio.
Informar que houve um atentado é impedir que o medo fique abstracto. Mostrar o rosto do assassino em loop é transformá-lo em mito. Há acontecimentos que precisam de ser conhecidos sem precisarem de ser exibidos até à exaustão.
Há mortos que merecem ser lembrados sem que a sua morte seja transformada em conteúdo.
E há monstros que não precisam de tanto tempo de antena. Precisam, precisamente, do nosso silêncio.
Porque talvez a pergunta não seja o que temos o direito de saber.
Talvez devêssemos começar a perguntar o que estamos a ajudar a acontecer ao repetir isto pela centésima vez.
A informação é um direito.
A atenção tornou-se o prémio.
E nós andamos a distribuí-lo de graça.
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