Há coisas que me tiram genuinamente do sério. Não é figura de estilo.
Por exemplo, gente que comenta o verniz em vez de comentar a racha na parede. Que olha para uma tenda no Rossio e acha que o problema é a tenda. Que olha para um miúdo de 24 anos a dizer que não consegue pagar um quarto e conclui que o problema é o miúdo estar despenteado, ou fumado, ou mal-agradecido.
Tenho pouca paciência para isso. Assumo.
Mas vamos ao arquivo de etiquetas, porque Portugal tem uma colecção.
Em 1994, um senhor jornalista, Vicente Jorge Silva, num editorial do Público, baptizou os estudantes que protestavam contra as políticas educativas da ministra Manuela Ferreira Leite como «geração rasca». Estavam nas ruas contra as provas globais no secundário e as propinas no ensino superior. A resposta foi uma palmada semântica: são rascos.
Em 2011, fizemos o trocadilho. Passámos de rasca para à rasca. A manifestação de 12 de Março apropriou-se do insulto. Eram os recibos verdes, os 600 euros, os licenciados a atender call-centers. Eram à rasca.
Não aprendemos grande coisa. Apenas actualizámos o vocabulário e envelhecemos o suficiente para começar a ralhar com os mais novos.
Agora, 2026. A Praça D. João I, no Porto, ocupada desde 10 de Outubro, e o Rossio, uns dias depois. Tendinhas, assembleias, cartazes a dizer «não somos sem-abrigo, somos geração sem casa». Na madrugada de dia 20, a PSP desmontou tudo. Voltaram. Na madrugada de dia 25, desmontou outra vez, ao mesmo tempo em Lisboa e no Porto, com 31 detidos e a discussão nacional sobre se as tendas tinham licença camarária e se os miúdos tinham tomado banho.
E eis que chegamos à actualização do catálogo: geração de ganzados, mal-agradecidos e, aparentemente, pouco asseados. A indignação, pelos vistos, também tem código de vestuário.
Não se discute a casa, discute-se a tenda.
Há uma arte muito portuguesa de transformar um problema estrutural numa questão de bons modos.
Disseram-me, com ar muito sério, que estes jovens não querem trabalhar. E eu penso: onde? Em que cidade? Com que renda? Porque a promessa para esta geração deixou de funcionar: estuda, trabalha e desconta, mas não sabe se consegue sair de casa dos pais. E a resposta que lhes damos é um conselho de etiqueta.
Confesso: também me irritam algumas coisas nas acampadas. O microfone demasiado tempo na mesma pessoa. A poesia falada às duas da manhã. Mas irritar-me não me dá o direito de lhes negar a razão.
Talvez a questão não seja saber se esta geração é rasca, ganzada ou mal-agradecida. Talvez seja perguntar que país estamos a construir quando uma geração tem de sair à rua para reclamar o direito a ter um tecto e a resposta que recebe é uma apreciação sobre os seus modos.
Uma casa não é um prémio de bom comportamento. E o direito à indignação não exige certificado de respeitabilidade.
O resto é decoração.
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