Há noites que não pertencem ao calendário. O Halloween é uma delas.
Começa leve: o cheiro das folhas molhadas, uma abóbora de sorriso torto num degrau, luzes a piscar como quem nos pisca o olho. O encantamento de fingir ser outro por umas horas, de esconder o rosto e, ao mesmo tempo, revelar aquilo que sempre quisemos ser. Passos apressados nas escadas e aquele fio de ternura entre quem dá, quem recebe e quem observa da janela, com uma caneca quente nas mãos.
Depois, quando as velas se apagam, chega a segunda voz.
O silêncio fica cheio. As máscaras, pousadas na mesa, parecem observar-nos de volta. E percebemos que os fantasmas nem sempre estão lá fora. Alguns vivem dentro de nós: nas memórias que evitamos, nos nomes que já não dizemos, nos gestos que ficaram por fazer. É a voz que nos acompanha até ao espelho e pergunta baixinho: «E tu, de que te disfarças quando o mundo adormece?»
E no meio, fico eu.
Há uma voz que se ri, outra que se lembra e outras que ainda não sei nomear. Umas acendem luzes, outras preferem o escuro. Por vezes, contradizem-se. Nenhuma parece particularmente interessada em convencer as restantes. E eu não tenho energia para arbitrar a discussão.
Lá fora, a noite continua. Há quem peça doces, quem se disfarce, quem ria dos sustos. Cá dentro, outras coisas acontecem. Uma lembrança aparece sem avisar. Um silêncio demora-se mais do que devia. E o mundo, indiferente à nossa vida interior, continua a cumprir os seus horários.
Talvez seja essa a estranheza destas noites: caber tanta coisa no mesmo espaço sem que nenhuma tenha de ceder o lugar às outras.
As velas acabam por se apagar. As máscaras regressam às gavetas. Amanhã, a noite será outra, embora nem tudo o que nela aconteceu tenha a delicadeza de desaparecer com a luz.
Por enquanto, fico aqui. Com as vozes todas. As que riem, as que se calam, as que ainda não chegaram.
Sem comentários:
Enviar um comentário