As palavras com que costumávamos nomear o mundo estão gastas. Não por desgaste honesto — pelo uso, pela luta, pelo atrito com a realidade — mas por abandono. Ficaram para trás enquanto o mundo continuava, e entretanto foram saqueadas: duas ou três sobreviveram, mas irreconhecíveis, insufladas até ao tamanho de parangona, esvaziadas de sentido cirúrgico, prontas a ser arremessadas.
Não fazem pontes. Fazem buracos.
Daí esta sensação persistente de caos: não é que as coisas se tenham tornado incompreensíveis. É que ficámos sem léxico para lhes chamar o nome — e com muito barulho no lugar onde esse léxico deveria estar.
Talvez fosse necessário inventar um glossário novo. Mas isso dava trabalho. E há sempre qualquer coisa mais urgente — ou que parece.
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