Há um cheiro que não mudou desde que era miúda. Não sei nomeá-lo com precisão — é sal, é pinheiro a aquecer, é qualquer coisa a maresia que se mistura com pó seco de terra de carestia. Mas reconheço-o a cem metros, com os olhos fechados, antes de ver o mar.
É o cheiro do sotavento. E é, presumo, o mais próximo que tenho de uma memória que não se deixou estragar.
Tantas coisas mudaram. As casas, os preços, as pessoas que já não vêm. Eu própria mudei o suficiente para não reconhecer a miúda que correu por estas dunas. Mas o cheiro está exactamente onde o deixei.
Há uma reserva aqui ao lado e os pássaros não sabem nada de nostalgia. Fazem o que sempre fizeram — gritam, pousam, partem em bandos que desenham e desfazem formas no céu sem se preocuparem com quem está a olhar. Há nessa indiferença um sossego que nenhum conselho me deu.
Talvez seja isto o contentamento que não sei escrever: não a felicidade, que exige acontecimento, mas a permanência. O facto de haver coisas que esperam por mim exactamente como as deixei — um cheiro, um som, uma reserva de pássaros que continuam o seu mundo indiferentes ao meu.
Aqui há silêncio. Não o silêncio que falta — o silêncio onde cabe o chilreio dos pássaros, o som das ondas, os passos sem pressa de quem já não tem onde estar senão aqui.
E, de repente, basta.

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