Há agora uma t-shirt. Provavelmente há também um Pinterest board, um canal de YouTube e uma marca de roupa em algodão orgânico que vende a ideia de que andar mentalmente algures entre o absurdo e o colapso é, afinal, um estilo de vida. Chama-se Mentally Hilarious e é, segundo os seus arautos digitais, uma forma positiva de encarar os pensamentos intrusivos, a dissociação ligeira e o facto de se estar fisicamente presente mas mentalmente a fazer compras noutro planeta.
Bem-vindos. Eu já cá estava.
Não com t-shirt. Com blogue.
Desde meados de 2004 — quando os millennials ainda andavam a tentar perceber se deviam ter filhos ou comprar casa, e acabaram por não fazer nem uma coisa nem outra a tempo — que a Hipatia mapeia este território com a precisão de quem não precisa de legenda para explicar o conceito. Até já escrevi sobre um certo gajedo de trinta e muitos, quarenta e poucos, reunido ao almoço das quintas com ar altivo e condescendente e um aspecto de banho de loja e perfumaria, mesmo que a loja seja a feira e o perfume de amostra. Escrevia sobre o desespero com sorriso em contramão. Sobre a solidão estampada na cara de quem apregoa uma suposta e falsa confiança. Sobre os mecanismos que precisam de ser devidamente oleados, com ou sem intervenção mecânica.
Se isso não é mentally hilarious, não sei o que é.
A diferença — e há uma diferença que importa — é que a trend precisa de explicar o que é. Precisa de empacotar, de dar nome, de pôr numa camisola para que as pessoas reconheçam a experiência que já tinham mas não sabiam nomear. O que é, em si, perfeitamente humano e até simpático. Não tenho nada contra o algodão orgânico.
Mas há qualquer coisa ligeiramente cómica — e portanto muito adequada ao tema — em ver chegar uma estética inteira construída à volta do humor como escudo, da observação como sobrevivência, do absurdo como linguagem materna, quando isso aqui já era mobília velha. Não mobília vintage, que essa já tem mercado. Mobília velha mesmo. A que fica porque é boa e porque ninguém se lembrou de a vender.
A Mentally Hilarious é a versão democratizada e consumível de algo que algumas pessoas sempre fizeram por necessidade, sem manual e sem merch. Não por serem mais inteligentes ou mais sofisticadas. Apenas porque não havia outra forma de continuar a aparecer ao almoço das quintas com ar de que tudo estava bem, quando claramente não estava, e achar piada ao espectáculo todo na mesma.
Isso não se aprende num Pinterest board.
Aprende-se ao fim de anos a olhar para o mundo com aquela expressão específica — nem cínica nem ingénua, qualquer coisa no meio — e a decidir que o que se vê é demasiado absurdo para não ser anotado.
A t-shirt posso emprestar. O arquivo não.
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