2026-06-11

O amanhã


O amanhã é uma droga limpa. Não deixa marcas visíveis, não exige receita, não tem ressaca imediata. Tem apenas o efeito de todas as drogas: a ilusão de que o problema fica resolvido — a seguir.

​A seguir ao fim do dia. A seguir ao fim da semana. A seguir a esta fase, que é sempre uma fase e que passa, que há de passar.

​O curioso é que raramente adiamos aquilo de que não gostamos. O trabalho difícil faz-se. As contas pagam-se. As urgências encontram sempre lugar. O que empurramos para amanhã são, muitas vezes, as coisas que exigem presença: a conversa que pode mudar algo, a decisão que nos obriga a escolher, o descanso que não produz nada, o prazer sem justificação, o luto que não aceita agenda.

​O amanhã é um grande organizador de consciências. Arruma tudo numa prateleira invisível onde acreditamos que haverá mais tempo, mais energia, mais clareza, uma versão mais competente de nós próprios. Como se o simples facto de uma noite passar pudesse transformar-nos na pessoa que hoje não conseguimos ser.

​O corpo sabe antes de nós. Acumula o que adiámos — a conversa, a decisão, o descanso, o prazer, o luto — e apresenta a conta sem avisar. Não em data marcada, mas no momento menos oportuno, que é sempre o momento certo.

​Primeiro avisa. Depois insiste. Por fim, deixa de pedir licença. Uma insónia aqui, uma irritação sem destinatário, um cansaço que não melhora com férias, uma tristeza que parece vir do nada. Gostamos de chamar-lhes fases, porque as fases passam. Mas nem sempre passam; às vezes, apenas mudam de sítio.

​Há vinte anos, eu adiava com o corpo. Usava-o e deixava-me usar, num acordo tácito entre pessoas que simplesmente não queriam falar. Era eficaz. O sexo tem a vantagem de ocupar completamente o presente — enquanto dura, não há amanhã.

​Já não funciona assim. O repertório do adiamento foi-se diversificando com a idade, como convém. Hoje, o corpo paga de outras maneiras: mais silenciosas e mais caras.

​O amanhã continua a ser um fio de esperança. A diferença é que já sei que é apenas um fio — e puxo-o na mesma.

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