2026-11-08

Rácio de solvabilidade

Na terça-feira, o Banco Central do Paraguai mandou fechar o Ueno Bank. Rácio de solvabilidade inferior a metade do mínimo legal, diz a nota. Em linguagem de balcão: o dinheiro foi de férias e esqueceu-se do bilhete de volta. Aparentemente, também não deixou morada. Nem cheiro. Só o buraco.

Quase três milhões de clientes, num país com menos de sete milhões de habitantes. Não é um banco, é um recenseamento. Quando uma instituição consegue captar os depósitos de quase metade de um país e não consegue cumprir metade do capital que a lei exige, já não estamos perante má gestão. Estamos perante uma ideia bastante criativa de banca: a de que o dinheiro dos outros é nosso até alguém dar por isso.

O Ueno era digital, o que prometia uma falência limpa, sem bichas, sem aquela cena antiquada de gente aos empurrões à porta. Engano. As bichas foram para a rua, por falta de balcão. A tecnologia não resolveu o problema: limitou-se a conseguir que a desgraça chegasse a mais pessoas ao mesmo tempo, com notificação push e tudo. O colapso com boa interface. A ruína com uma fabulosa experiência de utilizador.

Na quinta-feira, o Presidente Santiago Peña anunciou que se demitia e pediu desculpa ao povo caso tivesse falhado em alguma coisa. O condicional, essa pequena maravilha da língua, permite pedir desculpa sem admitir coisa nenhuma. É a responsabilidade política em versão experimental. É o «desculpa se te sentiste ofendido» dito de gravata e com a bandeira atrás. O Congresso não aceitou a demissão. Preferiu despedi-lo, que é como quem devolve a carta por não vir em duplicado. Nem a saída lhe deixaram fazer bem.

Na sexta-feira, o Senado fê-lo com 44 votos, por falha grave no exercício das funções, depois de a acusação sustentar que fundos da segurança social foram parar ao banco. O dinheiro dos trabalhadores, portanto, tinha encontrado uma aplicação de risco. Pena que os trabalhadores não tenham sido consultados sobre o seu perfil de investidor. Ninguém lhes perguntou se queriam reformar-se aos 65 anos ou financiar o buraco de um banco digital. Peña nega qualquer ilícito, naturalmente. Nesta fase, a inocência é sempre uma questão de princípio. A solvabilidade, pelos vistos, já não. A decência, há muito que não.

Sucede-lhe o vice-presidente, Pedro Alliana, que governa até 2028 apesar de o seu nome também figurar nos processos abertos pela Procuradoria. A sucessão está assegurada. Muda-se o ocupante da cadeira, mantém-se a decoração e, pelos vistos, a lista de convidados da investigação. É o mesmo vómito, noutra tigela. Continuidade, chama-se a isto. Ou, em linguagem bancária, transferência interna de responsabilidades.

A solvabilidade política da direita anda pelas ruas da amargura. E não parece ser um problema exclusivamente paraguaio.

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