2019-05-15

Dos absurdos em véspera de Europeias

Não concebo nem admito certos comentários racistas e xenófobos aos portugueses. Só se não conhecermos a História.  Ou a tivermos deturpado para encaixar numa visão do mundo alucinada.

Que povo somos, afinal? Não fomos sempre um País em movimento para algum lado, migrantes de e para toda a parte?

Com fronteiras mais ou menos estáveis desde o século XII, ainda fomos malhar mais um bocadinho nos árabes que restavam para chegar a sul. Depois, fizemos ali umas guerrinhas na fronteira e raios, Olivença até é nossa. De seguida, vamos de ir ali até ao Norte de África. Não chega e continua-se por África fora e mais além. Brasil? Ena! Pouco importa que até já lá houvesse gente, que até se fez bom dinheiro com o tráfego esclavagista banhado a ouro. E as migrações continuaram, mesmo depois de já não haver nada para descobrir, desde os pés rapados oitocentistas que iam até ao Brasil fazer fortuna e regressavam depois para construir casas gigantes e comprar um título de Barão. Ou em África, que até se dizia portuguesa. Ou, depois, o Império já mais ou menos todo perdido, mandar os analfabetos e deserdados fazer pela vida na construção de França, da Alemanha, do Luxemburgo, do Canadá, dos EUA, da Venezuela, um pouco por todo o lado.

Agora, o povo que nunca respeitou fronteiras, ou credos, ou fosse o que fosse quando andava a fazer pela vidinha, não quer imigrantes, que não há que chegue para os "nossos", que a juventude vai embora que não tem trabalho e blá, blá, blá. E os tantos de portugueses que continuam a partir? Os licenciados que vão, os outros todos que continuaram a ir, não são migrantes, claro, porque são dos "nossos", coitadinhos, e até vão de avião.

Um País de emigrantes a acenar com a bandeira da xenofobia é um absurdo. E o pior é que é uma bandeira velha e de resultados já bastas vezes comprovados como funestos.

Depois, a História, apesar das suas fronteiras, não foi justa nos movimentos migratórios da riqueza, nem da sua distribuição. E não foi menos porque uns quantos de pobres saltaram fronteiras para lutar pela vida, mas antes porque um punhado de poderosos foi à terrinha dos outros fazer pela própria vidinha.

Num Mundo economicamente globalizado e financeiramente interdependente, fechar fronteiras migratórias já não resolve nada. É só meter a rolha a jusante e temo que, no fim, o dique acabe por rebentar bem mais acima. Mas, como sempre – e as crises anteriores assim o demonstraram – há sempre alvos fáceis para a retórica. Cá estão outra vez os imigrantes. Daqui a nada vamos fazer o quê? Arranjar umas janelas de cristal para partir numa única noite de folia e deixar que o ódio endémico, sem nada resolver, sirva apenas de escape para as amarguras várias, quase todas sem terem nada a ver realmente com a cor da pele, ou o credo, ou a nacionalidade, muito menos a fronteira?

E agora que resolvemos não ter filhos, vamos acabar como? Velhos, sem segurança social e sem ninguém que nos mude as fraldas 

2019-05-04

Meu menino!

Às vezes fico a olhar e penso que entregamos nos teus ombros, ainda tão pequeninos, todo o futuro que esperamos melhor. Meu menino, criado entre gente cansada, tardio e bem vindo! A ti entregamos a manhã, a tarde, a noite, a madrugada, a familia, a amizade, o cheiro da terra molhada dos nossos outonos e o verde de todas as primaveras, o sorriso e o choro, o direito de gritar, de rir, de crescer. E de ser feliz!

2019-04-20

Palavras

“Words are things. You must be careful, careful about calling people out of their names, using racial pejoratives and sexual pejoratives and all that ignorance. Don’t do that. Some day we’ll be able to measure the power of words. I think they are things. They get on the walls. They get in your wallpaper. They get in your rugs, in your upholstery, and your clothes, and finally in to you.”

― Maya Angelou

2019-04-16

Dia da voz

Dedilho acordes de memórias banais. Não tenho história. Não tenho reino. O meu Universo é um tecto baixo e as estrelas vão fugindo. E, em dias assim, muito mais do em tantos dos anos em que tive diariamente a voz em fuga, estou muda.

2019-03-07

Violência contra as mulheres


É certo que, de certo modo, estamos todos mais atentos. Mas isso não tem servido de nada às tantas de vítimas, mesmo quando denunciam, mesmo depois das queixas na polícia, mesmo quando nem assim estão seguras. Quando chega a julgamento, sabe-se lá que código vão aplicar, ou se vai ser tratada de vadia e humilhada com a Bíblia.

Se mudou alguma coisa depois de passar a "crime público"? Mudou: todos podemos denunciar, quando nos deixamos das velhas tretas do "entre marido e mulher" e o crime não desaparece quando a mulher, quase sempre coagida, retira a queixa.

Mas isso não quer dizer que não esteja praticamente tudo mal à mesma. Com uma excepção: ainda que a carnificina continue, agora tem forma de estatística religiosamente "printada" nos jornais.

Das virgens ofendidas

O Sr. Dr. Juiz, tão ofendido no seu bom nome, contratou para o representar um senhor advogado que faz comentários da mais baixa boçalidade, mas que pelos vistos não é suposto ofenderem o nome de ninguém.

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és...

2019-02-21

Boatos

Quando as cidades nasceram sub sino, os adros encheram-se de histórias e carpideiras e boatos. Mas as cidades cresceram e, quando não vigiados pelas senhoras de lenço à janela ou pelo olho que tudo vê, andamos a pôr-nos alegremente em rede, mostrando muito mais do que queríamos. E esta rede também está cheia de histórias e carpideiras e boatos.

2019-02-05

Equilíbrio

Teria sido mais fácil se tivessem imaginado o demo como mulher. Talvez à conta das artimanhas. Ou apenas para haver um mundo balançado entre opostos. Mas a balança ficou torcida e misógina, sobrando de um dos lados apenas demónios e bruxas e a tradição popular é que fez santas quem a doutrina queria putas. E vai dai, por conta do equilíbrio, reza-se mais uma Ave-Maria, enquanto se encomenda a alma ao Pai-Nosso.

2019-02-02

Bestas

É tão fácil chamar besta a alguém! Ouço as notícias em pano de fundo e lá estão umas quantas reportadas. E, no entanto, as bestas, as verdadeiras, não se agridem por motivos ideológicos, nem se matam por fanatismo. Talvez seja por isso tão monstruoso: passa muito além da bestialidade e fica-se pelo mais feio, cru e podre que a humanidade possui.

2019-01-27

Subsino

Em mais um Dia Internacional em Memória das Vítimas  Holocausto e depois de mais um atentado à bomba a igrejas na Indonésia, caio na asneira de entrar numa caixa de mensagens frequentada por americanos evangélicos daquele tipo mais idiota, inculto e fundamentalista, o que quase me provoca uma apoplexia e só me apetece correr com aquela gente à lambada.

Não que não haja malucos de todas as denominações e os que estavam na igreja até eram cristãos e os bombistas fundamentalistas islâmicos. Mas admito que tenho umas visões muito pessoais sobre as religiões organizadas, começando com o desprezo que nutro por aquela ideia absurda de que viver tem de ser em sofrimentos e que se deve é esperar felicidade para depois de um desgraçado bater a bota. E imaginar um mundo do além onde teríamos essa tal de felicidade garantida, sentaditos numa nuvem muito branca, a ouvir salmos e cânticos celestiais e a gramar com um sem assunto que faria qualquer pessoa desejar antes o Purgatório, é dos cenários mais bizarros que consigo conceber. Já agora, será que as muçulmanas têm direito a 70 virgens ou como são só meio ser humano só tem direito a 35? E porque cargas de água se havia de sentir feliz uma mulher com um qualquer fedelho mal preparado, pior ainda um harém da mesma espécie? Ou por que é que virou piada de stand up um judeu ortodoxo dizer que antes cocaína do que um bocado de presunto?

Aliás, estou convencida que Deus – se existe mesmo – nos deu em alternativa à promessa do dogma, aos livrinhos reescritos e mal traduzidos um milhão de vezes, à pasmaceira da nuvem, à reencarnação como formiga e à ineptitude do harém, a capacidade de viver plenamente enquanto ser vivo sexuado e hedonista. E um bocadinho egoísta também, que é para  ver se a tal da felicidade não tem que ser adiada para as calendas dos mitos. Ou deixamos de nos matar uns aos outros em nome de um Deus que supostamente é de todos, ama todos, independentemente do que os Homens fizeram quando resolveram reunir-se cada um à volta dos seus e dos seus livrinhos, enquanto transformavam cada casa de oração numa Torre de Babel.

2019-01-26

Marcelo Rebelo de Sousa

Acho que está na hora de o Turismo de Portugal pôr o Prof Marcelo em lugar de destaque na página oficial. A ser verdade o que contam as notícias chegadas do Panamá, desta vez ainda volta a casa envolvido no manto da Virgem Peregrina depois de ter convencido a juventude católica do Mundo que em Portugal somos os maiores a falar 5 línguas: português, espanhol, francês, inglês e selfies 樂

2019-01-09

4 anos depois...



No dia em que matarmos o humor na ânsia padronizadora do politicamente correcto, estamos todos condenados. Condenados a uma qualquer Gattaca, num qualquer admirável mundo novo com o triunfo dos porcos à mistura. 

No dia em que continuarem a usar desenhos como desculpa, trocando tinta colorida por sangue rubro. No dia em que a humanidade perde definitivamente o rumo e, finalmente, os dois terços de escorraçados inventam o refrão mobilizador capaz de fazer as liberdades baixarem os braços, medrosas do que pode vir.

E não é piada. Pobres de nós que assim nos afastamos da nossa condição de Homens, os únicos animais que sabem rir.

http://anonhq.com/charlie-hebdoand-cartoonists-paid-life/

2018-12-24

Boas Festas!

Querido Pai Natal,

Já sei que este ano estou atrasada. Podia dizer qualquer coisa tipo "é a crise, estúpido", mas como já fazes greve todos os anos aos meus pedidos, tenho medo que desta vez te chateies a sério e nem um par de peúgas encontre no sapatinho.
Eu continuo a ser – juro! – uma menina bem comportada. Eu como a sopa, eu não minto (muito), eu porto-me bem e respeito os mais velhos, eu só insulto taxistas e outros cromos de toda a espécie atrás do volante, mais os árbitros e os futebolistas, bem como, ocasionalmente, os jornalistas e outros imbecis que têm um artigo de opinião nos jornais, além de políticos com e sem poleiro. Mas tenho a certeza que se vivesses cá também insultavas!

(insultei bastante o Bruno de Carvalho, mas esse não conta, pois não?)

O ano passado não quis complicar. Viste como fui linda, Pai Natal? E pedi paciência. Só paciência! Onde foi que a meteste que não chegou à minha chaminé? Ainda está no cu de Ju… (quer dizer) no nariz do Rudolf?

Este ano, Pai Natal, nem brinques! A crise vai preta! Negríssima! Por isso, Pai Natal, fica lá com os gajos e a paciência e traz-me só uma coisinha: o poder de compra que tinha há 15 anos atrás. E já agora, saúdinha, nas essa vou antes pedir ao Menino Jesus. Vale?

Beijinhos, Pai Natal

2018-12-20

Nevoeiro e outros fumos

Portugal vai transformando-se numa espécie de nevoeiro, com discursos e pantominas à mistura. Digamos que uma cortina de fumo, com um País pardacento reduzido à letargia de, daquele lado, já não esperar nada de decente e, por isso, demitindo-se gradualmente até se deixar levar pelo panfletário sem nem investigar de onde vem a mobilização do coletinho. Para a mediocridade que vai, será que vale oferecer pior ainda?

2018-10-08

Gajos

Os gajos são uma espécie estranha! Quanto mais velhos e podres, mais potente o carro que compram. E é vê-los nos Lexus, Jaguares e Porshes... a trinta à hora. Como se, num óbvio reflexo de potências pretendidas, não sobrasse mais do que um mal empregado equipamento.

2018-10-07

Valores


Anna Politkovskaya foi assassinada a 7 de Outubro de 2006. Lembro-me de um cartaz que então perguntava se vale a pena morrer pelo jornalismo. E lembro-me de achar, como acho ainda, que a pergunta estava errada: o que sempre esteve em causa é se vale a pena morrer pela liberdade de expressão e de pensamento. Pobres de nós quando nos vemos reduzidos a morrer por um ofício e o seu soldo correspondente, já sem acreditar em qualquer valor fundamental.

2018-09-23

Glossário

Acho mesmo que a grande maioria dos conceitos em que costumávamos assentar as nossas (re)construções do real está esgotada, vazia de sentido. Talvez por isso pareça ser, tanta vez, uma época de crise e caos: nem temos sequer as palavras certas para dizer o nosso mundo. Talvez seja necessário inventar um glossário novo até para a nossa rebeldia, ainda que mais por inépcia e comodismo do que propriamente por convicção.

Ramos Rosa

«Tu pensas
que os cardeais
não se masturbam,
que não vêem
as telenovelas,
que vêem, quando muito, os filmes de Bergman
e o Evangelho segundo São Mateus de Pasolini.
Não, eles nunca lêem os livros pornográficos
e nunca pensaram em ter amantes.
Eles não conhecem o turbilhão das visões
das figuras eróticas,
eles lêem os exercícios espirituais
de Santo Inácio
e têm o odor da santidade
e irão para o céu porque nunca pecaram,
nunca acariciaram um pénis,
nunca o desejaram túmido e ardente
na sua boca casta.


Ah os cardeais como são exemplares
mesmo quando os espelhos os perseguem
com os membros e órgãos de mulheres
na fulguração da nudez liquida e candente!


Todavia eu conheço a obstinada chama
do desejo,
a sua glauca ondulação,
os seus olhos deslumbrados pela oceânica
vertigem
de um corpo embriagado pela sua simetria
e pela volúvel coerência
dos seus astros dispersos.


Não, eu não creio na inocência imaculada
dos solenes cardeais.
Eu sei que a sua carne é a mesma argila
incandescente e turva
de que o meu corpo frágil é composto.
Eles conhecem o sofrimento de ser duplos,
o vazio do desejo,
a violência nua das imagens monstruosas,
a adolescência do fogo nos labirintos negros.


Mas eu sei que os cardeais não gritam,
nem levantam a voz,
nem atravessam a fronteira do pudor
e adormecem ao rumor das orações.
É esta imagem que eu quero conservar
na religiosa monotonia do meu sono.»

António Ramos Rosa - Tu Pensas que os Cardeais

2018-09-08

Irritações

Às tantas vou ficar igual, mas enquanto não fico, rais'parta os velhos ao volante! Tão depressa vão a 20km/hora, como de repente viram bichos arraçados de chita. Especialmente se vêem una rotunda ou, pior!, uma mulher a ultrapassa-los.

2018-09-04

Dos conflitos internacionais

Enrezina-me por dentro esta ideia de que todas as guerras e todas as intervenções internacionais são um nadinha diferentes em função não das vítimas mas dos seus supostos salvadores. E que o sol não vai nascer para os corpos que ninguém quer contabilizar hoje na Síria como antes não foram realmente contados no Sudão, ou em Beirute, ou em Timor, ou em Burma, ou no Kosovo, ou na Tchetchenia, ou no Ruanda ou na Ex-Jusgoslávia ou... E que, quando mais estes passarem e mais uns poucos encherem os bolsos e muitos encherem as covas escavadas a sete palmos, então, mais uma vez, ninguém recordará como foi e tudo voltará a ser o que cedo foi esquecido pelos caminhos mal trilhados da história que só se ri para os vencedores.

2018-08-25

Anónimos

Quando morre alguém que respeitamos, ou cujos familiares nos merecem respeito, cumprimos uma série de ritos próprios à ocasião, guardamos o luto, cumprimos os rigores do nojo. Depois, a vida segue, como segue sempre, mesmo quando uma qualquer partida, extemporânea ou não, nos leva um pedaço junto. Nas redes sociais, na net em geral, não há ritos nem respeito: esquarteja-se o cadáver até lhe mordiscar os ossos, especialmente se o morto nunca fez parte dos nossos seis graus de proximidade com o resto da (des)humanidade.

2018-08-24

Ponto da situação

Um dia cheguei a casa e criei um blogue. Ou melhor, comecei a criar um blogue...

Foi em 2004 e hoje faz anos. Ou melhor, hoje ainda não morreu.

2018-08-18

Recordando Barcelona

Cara a cara, as pessoas são boas ou más, gostas ou não delas, não importa nem cor nem religião nem ideologia. É a estranheza e a distância que trazem a desconfiança e o medo. Extremismos e fundamentalismos já nada têm a ver quer com credo, quer com cor, quer com política. Viraram cultos irracionais presos com cuspe às suas desculpas e argumentos fabricados. Só resultam pela desumanização do indivíduo, transformando o outro em arquétipo sem rosto, sem família, sem sangue.

Recuso-me a meter tudo no mesmo saco. Recuso-me à lavagem cerebral de qualquer culto. Recuso-me a não ver cada pessoa que se me apresenta como indivíduo. Porque há o cara a cara, porque se gosto de uma pessoa não importa cor ou religião ou ideologia; porque se ela gosta de mim, também não é pela minha cor ou a minha falta de religião ou ideologia.

Passou o primeiro aniversário do 17A. E houve demasiado ruído sobre cor, sobre credo, sobre ideologia. Foi um mau serviço prestado à História. E à memória das vítimas. ☹

2018-08-10

Sombras

Tenho andado com sérias dificuldades em entender o sucesso do Sr. Grey e todas as declinações do tema que vão enxameando os escaparates como se fossem grande novidade. Mas talvez eu esteja velha demais e o meu Mr Grey ideal chamou-se John e teve a cara do Mickey Rourke antes dele a destruir à porrada. Em 1992 ainda tinha apelo e era subversivo e proibido e não me deixava apenas com vontade de fugir a sete pés de todas as relações com sabor doentio. Acho que já dei para esse peditório. Agora é decididamente baunilha. Com twists light, que estou de dieta.

2018-07-12

Autodeterminação de Identidade de género

Mesmo quando só me apetece insultá-los na maioria dos dias, mesmo que os insulte de facto, sabendo que é sempre um passo para a frente e dois para trás, rais'parta os políticos portugueses e as suas decisões. Cá está mais uma. Mais uma conquista sacada a ferros, quando ainda há bem pouco tempo Cavaco Silva queria proibir que quem já tinha mudado de sexo conseguisse mudar de nome. E nem sequer me choca a proposta chumbada do PSD. Também se tinha vivido bem com ela, não tão bem, mas muito melhor do que até agora. Bolas! Nasci durante uma ditadura durante a qual ninguém tinha direitos. No espaço da minha vida que não chega a ser ainda uma geração, o meu País e a minha sociedade, legislou e aceitou tantas liberdades que às vezes até acho que não sabem bem o que fazer com elas. Faltam as touradas? Faltam. A morte assistida? Também. Mas alguém duvida que, mais um passo para a frente e dois para trás e também chegamos lá?

2018-05-31

Eutanásia

Vou descobrindo que, quando se trata dos modelos com que a sociedade se escolhe regular, em Portugal nada se decide à primeira. Talvez seja característica da sociedade. Mas, depois, olho para a sociedade que temos, para os modelos que já se conseguiram alterar com e apesar a inépcia dos políticos portugueses e confronto-os com os modelos que fomos derrotando pelo caminho. Não estou mal nesta sociedade e com estes políticos que (ainda) não legislaram a eutanásia. Tantos outros modelos que pareciam impossíveis e fazem hoje parte das nossas liberdades (IVG, direitos LGBTQ, despenalização do consumo de drogas, até os direitos dos animais). Olhando para o mundo, olhando até só para a Europa, foram muitas mudanças em muito pouco tempo. Ao contrário de muitos, não tenho vontade de dizer mal deste Portugal. Tenho até bastante orgulho nele.

2018-04-24

Poemarma

"Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês.

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua.

Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas.
E até se partir uma não faz mal: 
antes de muletas que de asas eternas.

Que o poema assalte esta desordem ordenada
que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!
Que faça ginástica militar aplicada
e não vá como vão todos para França.

Que o poema fique. E que ficando se aplique
a não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo, o desejo de achar.

E que o poema diga: o longe é aqui
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
Ah que o poema chegue ao pé de ti
e te diga ao ouvido o que é preciso.

Que o poema actue directamente sobre o real
nem que por vezes seja só o poeta em movimento.
Ah que o poema para ser original 
transforme em braços e acção o pensamento.

Que ponha sinos a tocar dentro das rosas
e seja mais que rosa flor de cacto.
Que o poema saiba ver dentro das coisas
a mão do homem feita poema em acto.

Que o poema me dispa de tudo o que não presta
e me transforme na sua própria acção.
Nem quero outra glória nem quero outra festa:
morrer como Guevara na Bolívia da canção.

Só tu, povo fardado de ganga azul
poderás dar-me a glória ou recusar-ma.
Aí vai o meu poema a minha taça do rei de tule
aí vai para ser arma!"

Manuel Alegre

2018-02-04

Espanha

Vi alguns dos vídeos e li algumas coisas que escreveu. Tinha-o resumido dentro da minha cabeça a um idiota extremista que exagerava para conseguir exposição neste tempo de youtubers e afins. Perdi-lhe o interesse com facilidade, como tantas vezes acontece com um qualquer fait-divers que me chama por momentos a atenção e rapidamente esqueço. E no entanto, as coisas nunca desaparecem definitivamente da minha memória. Parece que em 2014 foi condenado a dois anos de prisão por "enaltecimiento del terrorismo". Mas 2014 foi um ano muito diferente do que promete ser 2018 para Espanha. Agora Hasel pode ser condenado a 12 anos de prisão efectiva. E uma condenação destas em 2018 numa Espanha pós confusão na Catalunha, transforma um idiota num preso político e Espanha numa suposta democracia moderna que não respeita a liberdade de expressão, mesmo que seja a liberdade de expressão de idiotas extremistas à procura de exposição mediática.

2017-12-21

"Do They Know It’s Christmas"

Aqueles eram os anos que supostamente tinham enterrado as utopias floridas da década de 70, os anos do individualismo, do consumismo. Mas a fome em África, em forma de teledisco, fez filas nas ruas de gente que ia comprar um pequeno vinil para ajudar. Mesmo que a fome não tenha acabado e que a maioria soubesse que acabar com a fome nunca seria assim tão simples.

Eu olho agora para este Mundo de hoje e vejo-o seco, encrespado. Continua a ser Dezembro. Continua a fazer frio. E continua a não ser Natal para todos e a consoada universal é a miragem com que já ninguém se ilude.

Lembro-me de que chorei a primeira vez que vi o teledisco do "Do They Know It’s Christmas". Lembro-me que foi como que um soco no estômago. Estive a ver um vídeos de como foi criada essa primeira versão de um tema que se repete. Tantos anos depois, não há forma de ficar desactualizado.

Hoje em dia já não é só a fome na Etiópia e as mesmíssimas imagens de fome e dor e morte continuam sem pátria nem fim. De tal forma que quando se fala agora de fome de uma criança a que a guerra tirou tudo alguém logo vem lembrar que temos gente a morrer nas nossas ruas. Como se fossem mutuamente exclusivas.  Como se fome não fosse fome, sem cor, sem nome, sem geografia. Como se não houvesse lugar dentro de nós para lamentar todos.

Por toda a simbologia desta simples canção pop, do tanto que à data conseguiu e o tanto que nunca fomos capazes de conseguir, continua a ser um dos hinos do meu natal. Com tudo de bom e mau que isso possa acarretar, afinal nunca deixei de ser uma fedelha que cresceu nos anos 80.

Boas Festas!

2017-11-02

Catalunha - parte dois

Continuo sem saber muito bem os que vos dizer, Catalunha. Tirando a observação óbvia que Mariano Rajoy é um idiota, que o governo que o sustenta tem demasiados tiques autoritários e que vão acabar na História como incompetentes. Ou que visto daqui havia uma óbvia falta de vontade de diálogo construtivo da parte da  Generalitat, que bateu o pé e foi incapaz de encontrar outro rumo, não tendo também demonstrado grande inteligência ao deixar-se encostar à parede.

Mas há algo de profundamente errado quando, em 2017, numa suposta democracia, se derruba um governo democraticamente eleito e se enfia os seus membros na prisão com acusações de sediçao.

E não entendo: um governos central intervém porque não gosta do resultado dos votos num referendo, mas depois quer eleições? E se não gostar do resultado dessas eleições? Vai manipular o resultado ou meter todos os independentistas catalães na prisão?

Nunca estive convencida de que a independência fosse a melhor solução, quer para a Catalunha, quer para Espanha. Mas também não pensei que se chegasse ao extremo de ver presos políticos numa democracia moderna...

É! Continuo sem saber o que vos dizer.

2017-09-23

Catalunha

Não sei que vos diga, Catalunha. Eu, aqui neste canto que cerrou trincheiras e só durante 60 anos se deixou subjugar.
Mas sei que a violência gera violência e a violência de Estado faz do pacifista um revolucionário.
Cá do meu cantinho, gosto de imaginar uma Espanha unida, mas entendo a necessidade de emancipação.
Não vos conheço todas as razões, nem para dizerem sim, nem para dizerem não.
Reconheço-vos, no entanto, o direito a dizer, a votar, que assim se vive em democracia. Mesmo e especialmente se depois vos disserem que o vosso voto constitucionalmente não vale nada.
Votar vale sempre a pena: é a única arma que faz sentido para um povo que queira esconjurar a ditadura.

2017-09-04

Irresponsáveis!

Em 1992, quando a China e a França ratificaram finalmente oTratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, parecia que, por fim, o terror nuclear ia para os livros da história da minha adolescência. As guerras seguintes, por mais pérfidas e mortíferas (ex-Jugoslávia, Ruanda, Kosovo...) eram "à moda antiga", ou rápidas e clínicas como a primeira guerra do Golfo. O terrorismo endémico da Europa ia-se esvaindo e sobrava o terrorismo pirotécnico para consumo massificado da Al-Qaeda ou do Daesh. Não pensei ter de voltar a ter medo de uma bomba H durante a minha vida. Não pensei que o mundo andasse assim ao para trás, com uma cambada de irresponsáveis a brincar com coisas demasiado sérias. Como se o que andamos a fazer ao clima não fosse suficientemente grave para a saúde do Planeta. :-(

2017-08-24

Moribundo, mas não morto!

Um dia cheguei a casa e criei um blogue. Ou melhor, comecei a criar um blogue...

Foi em 2004 e hoje faz anos :-)

2017-06-28

Apre!

Hoje fui apanhada à socapa por três mormons. Não sei bem como, que costumo fareja-los à distância, mas parece que abriram um templo que eu ainda não tinha reparado que existia. Bom-dia para cá, bom-dia para lá (sim, respondo, que ensinaram-me a ser bem educada) e começa a lenga-lenga da praxe. E o cigarro estava no início, por isso fui pedindo delicadamente que não falassem comigo nem de religião nem de deus, com as criaturas a insistirem até que uma se sai com um "tenho a certeza que deus está à sua espera". Passei-me! (o café ainda não devia ter feito efeito) e olhei a criatura nos olhos e perguntei: "como sabe? Ele mandou-lhe um telegrama?  É que se enganou na porta porque não estou interessada em nenhum planeta e já apalavrei um vulcaozinho no inferno". E pronto! As criaturas desapareceram à velocidade da luz.

2017-03-05

Imbecis e imbecilidades


Se há um idiota no parlamento europeu a defender opiniões imbecis, preocupem-se antes com quem votou no idiota e menos com qualquer tipo de censura descabida. Viver em democracia é viver também com idiotas. E esperar que nunca sejam a maioria.

2017-01-03

Dores que não sei imaginar...




[Nick Cave:]
Let us go now, my one true love
Call the gasman, cut the power out
We can set out, we can set out for the distant skies
Watch the sun, watch it rising in your eyes

[Else Torp:]

Let us go now, my darling companion
Set out for the distant skies
See the sun, see it rising
See it rising, rising in your eyes

[Nick Cave:]

They told us our gods would outlive us
They told us our dreams would outlive us
They told us our gods would outlive us
But they lied

[Else Torp:]

Let us go now, my only companion
Set out for the distant skies
Soon the children will be rising, will be rising
This is not for our eyes


2016-12-16

Aleppo

"Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata."

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

2016-11-19

ELA

A minha amiga mais antiga, mais velha do que eu um mísero dia, está a morrer. Esclerose Lateral Amiotrófica.

Em apenas dois anos desde que se declarou a doença até agora, o corpo foi-se desligando. Não fala há meses. Agora todos os dias são uma luta só para respirar. E o pior? Lúcida. Sem perder um único neurónio a não ser os responsáveis pela parte muscular. Presa ao corpo irreversivelmente, sabendo que definha e vai morrer, se não hoje, amanhã ou para a semana, deixando para trás dois filhos pequeninos.

Puta de doença!

2016-10-24

Democracia

A democracia é como a liberdade: vai haver sempre quem saiba delas abusar. E será também como uma certa ideia de justiça, aquela que nos permite defender que é preferível um culpado solto do que um inocente na prisão.

Os conceitos em si nada têm de errado; o que uns quantos fazem com esses conceitos, deturpando-os, adaptando-os aos seus interesses, corrompendo o seu sentido, é que sim.

Não culpo a democracia, como não culpo a política, como não desbarato por completo os conceitos operativos com que aprendi a pensar o real e a inserir-me nesse mesmo real como ser político. Mas culpo quem usa e abusa da política, até tantos de nós que se mantém sempre confortavelmente arredados da política e da polis e dos mais básicos exercícios de cidadania. Os mesmos que apenas se lembram do Estado quando chega a hora de estender a mão, num exercício de demagogia em tudo semelhante à daqueles a quem entregamos a responsabilidade de nos governar esperando que não se governassem apenas a eles mesmos.

Talvez afinal os culpados sejamos todos nós, habituados a uma certa ideia de democracia e demitidos de direitos e deveres. É porque tantos de nós se mantém assim de fora que o exercício político virou coutada de uma classe. E, como todas as classes, zelosa dos seus privilégios, temerosa de perder o pé, a viver à conta de quem apenas reclama e que nem sequer levanta o cu para ir votar.

Fomos nós que fabricamos o monstro; não foi a democracia.

2016-09-23

Inépcia

Acho mesmo que a grande maioria dos conceitos em que costumávamos assentar as nossas (re)construções do real está esgotada, vazia de sentido. Talvez por isso pareça ser, tanta vez, uma época de crise e caos: nem temos sequer as palavras certas para dizer o nosso mundo. Talvez seja necessário inventar um glossário novo até para a nossa rebeldia, ainda que mais por inépcia e comodismo do que propriamente por convicção.

2016-09-20

Salvem os ricos?

Ainda estou indignada com a tal treta dos direitos dos ricos. A pensar na geração dos € 1000 que nunca saiu dos € 1000 e agora até se acha cheia de sorte. E a pensar como para todos os outros sobra apenas o resto. Quando o resto já não chegar, será que ainda teremos forças para fazer o tal manguito?

2016-08-25

Itália

Enquanto o norte da Europa nos virava as costas (mais uma vez) durante os terríveis incêndios que dizimaram Portugal, a Itália mandou um Canadair. Pode não parecer muito, mas foi mais do que quase todos. O meu coração hoje está com "i nostri fratelli" :-(

2016-08-24

A Voz faz anos



Um dia cheguei a casa e criei um blogue. Ou melhor, comecei a criar um blogue... 

Foi em 2004 e ainda cá estou. 

Por pura teimosia.

2016-08-22

Uma lua tipo farol

Ainda fui à janela tentar perceber qual era o idiota do meu vizinho que estava de luz acesa. A idiota era eu :/

2016-08-16

Toda a vida



Irrita-me esta mania moderna de qualificar o óbvio. Mesmo quando não é óbvio. Porque devia ser óbvio.

2016-08-09

Dos extremismos

Um dos principais saltos qualitativos da espécie humana foi a capacidade de se desprender do tempo presente, recordando o passado e imaginando o futuro. E, ao fazê-lo, inventar essa capacidade mágica de acreditar: acreditar na “coisa” apenas imaginada, para depois dar-lhe forma; acreditar que há uma ordem implícita nos acontecimentos aparentemente fortuitos e que, por isso, podes acreditar que o sol volta a nascer amanhã, que uma determinada estrela volta a um determinado ponto do céu, que voltou a ser hora de semear. 

Esta capacidade de acreditar no que não está lá, não existe ainda, é um acto de fé. É que fé, tal como a estou a utilizar no que escrevo, remete apenas para o "fide" do latim, i.e., confiança. A confiança de que algo é possível, pode acontecer. Não tem nada a ver com religião organizada e padronizada. Tem a ver com o que somos. E, do que somos, conhecemos ainda tão pouco, que me iriso sempre quando alguém começa a falar apenas em factos. Porque até os factos precisam da imaginação e, sendo que usamos uma ínfima parte da capacidade do nosso gigantesco cérebro, quem nos garante que os factos até hoje conhecidos chegam? E por que ser tão afoito em mandar o desconhecido para a franja do paranormal? Mesmo que eu não acredite que uma prece possa levar a uma cura, porque não aceitar que a vontade de cura de alguém e a sua necessidade de acreditar que vai ficar curada, não dão origem a um qualquer processo que resulta numa cura real? Para quem como eu não sabe acreditar assim, será sempre necessário descobrir o facto que deu origem ao resultado. Quem acredita chama-lhe apenas milagre. E esses acontecem de facto a toda a hora. 

Somos, todos nós, tão diferentes e tão improváveis, sabemos tão pouco… Mas escolhemos acreditar. Seja em que for. E, por esse simples acto  conseguimos desprender-nos da condição de ser sem passado nem futuro, incapaz de se imaginar como parte de uma grande estrutura, para lá da manada de búfalos a caçar, ou da árvore com os frutos mais maduros. Por tudo isto, não confundo de forma alguma o direito a acreditar na obrigação de acreditar num Deus que outros desenharam por medida. E por tudo isto ando tão horrorizada com as vozes e actos de extremismo religioso.

2016-08-04

Palavras interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto 
encostado ao rosto dos navios. 
Sem nenhum destino flutuam nas cidades, 
partem no vento, regressam nos rios. 

Na areia branca, onde o tempo começa, 
uma criança passa de costas para o mar. 
Anoitece. Não há dúvida, anoitece. 
É preciso partir, é preciso ficar. 

Os hospitais cobrem-se de cinza. 
Ondas de sombra quebram nas esquinas. 
Amo-te... E entram pela janela 
as primeiras luzes das colinas. 

As palavras que te envio são interditas 
até, meu amor, pelo halo das searas; 
se alguma regressasse, nem já reconhecia 
o teu nome nas suas curvas claras. 

Dói-me esta água, este ar que se respira, 
dói-me esta solidão de pedra escura, 
estas mãos nocturnas onde aperto 
os meus dias quebrados na cintura. 

E a noite cresce apaixonadamente. 
Nas suas margens nuas, desoladas, 
cada homem tem apenas para dar 
um horizonte de cidades bombardeadas. 

Eugénio de Andrade - Palavras Interditas, in Poesia e Prosa

2016-08-02

WTF?


Provavelmente estou demasiado velha para perceber o encanto da coisa. Um bom sofá e uma bebida fresca e fico feliz...

2016-07-31

Lua



Jazendo só havia dois corpos cansados, iluminados por uma lua breve, brevíssima, no negro do céu. Nem estrelas, nem constelações. Só uma lua amarelo-torrado e o calor da noite, esfumado, e um dedo que percorria ainda o reverso de um joelho.

2016-07-26

Anticorpos



Sobreviver não é bonito, nem tem de ser bonito. Pode ser degradante, malcheiroso, indigno. E pode também ser um espectáculo. Nos jornais e telejornais, a desgraça já é parangona há demasiado tempo. Tanto tempo que as pessoas já começaram a desenvolver anticorpos a essa desgraça demasiado evidente. Os media arcaicos tratarão de fornecer o circo e o pão de alguma maneira, sabendo que o espectáculo iníquo da sobrevivência alheia tem sempre público fiel. Os novos meios seguem-lhe os exemplos. E sobram os corpos decepados das vítimas, num qualquer vídeo novo onde se vê cada vez mais um bocadinho do pesadelo e dos corpos irreconhecíveis, se tiverem um qualquer brinquedo ao lado ainda melhor. A janelinha para o mundo transformada em caixinha dos horrores... :-(

2016-07-24

Endoutrinados

Cartoon: Shahrokh Heidari/Hollandse Hoogte


As questões de fé são simples: não as tenho. Pelo menos, não as tenho num sentido clássico, de acreditar que tudo se resolve por influência divina e deixar os destinos entregues, à confiança, a uma qualquer entidade superior. E por mais que, depois, sinto falta das muletas, aterroriza-me a linearidade do pensamento, a falta de responsabilização, a promessa ignóbil de qualquer martírio.


Banda sonora para um fim-de-semana


2016-07-21

Politicamente incorrecto



Pouco me importa o sexo de quem escreve; basta que escreva coisas de que gosto. Também confesso que me farto facilmente de ver declinações sucessivas de temas e pessoas que querem sempre enfiar tudo e todos em fatos por medida. E neste mundo binário que se habituou aos likes e Pokemons, sinto falta de uma boa, velha e aguerrida discussão, carregadinha de verrina.

(...)


2016-07-20

Simplificando


Às vezes irrito-me com a forma como me parece que a língua portuguesa anda a ser assassinada. E nem é o famigerado acordo ortográfico ou estrangeirismos abusados. É muito mais esta forma como o "smsês" se vai impondo...

2016-07-19

Silly Season



Parece que o bug da silly season se esqueceu de bater aqui à porta e não faço ideia do que se passa com os tais dos Pokemon. Mas ultimamente o País parece que endoidou de vez ou às tantas sou eu que estou a precisar desesperadamente de férias e tenho aloirado com a estação.

2016-07-14

Agora que a bola acabou



Cá estamos nós outra vez a aterrar na realidade da crise que nunca desapareceu. E cá estou eu: cansada, triste, manietada, explorada, desencantada, espezinhada, desrespeitada e amarga. Além do medo, claro, que é só o meu que entra em casa para todas as despesas e isso torna o medo algo insidioso, que me vai comendo um bocadinho da alma todos os dias.

2016-07-11

Não tive direito a tolerância de ponto




Ver Benni McCarthy a pular e a dançar de alegria, saber que Tamila Holub e Tsanko Arnaudov nos trouxeram medalhas para casa, que o Pepe escolheu Portugal, que o Éder nasceu em Bissau, que o Quaresma é o nosso ciganito, sim senhor, que havia tunisinos pelas ruas de Paris a passear bandeiras portuguesas e que as nossas crianças sabem consolar os adversários... devemos saber fazer umas coisas. Umas coisas bem feitas. Muito além do futebol. Receber quem nos quer, transformá-los em nossos. Num mundo cada vez mais dividido, este é o meu orgulho no saber ser português.

E o caneco é nosso :)

2016-07-05

Ratos



Poderia parecer óbvio há umas semanas atrás. Afinal, a barca europeia há muito que mete água e vai-se afundando em pântanos que só uns quantos controlam e muito poucos conseguem entender. Mas com as atitudes de Johnson e Farage no pós-Brexit, pergunto-me onde estão realmente os ratos...

Filhos e enteados


2016-07-04

Urubuzadas


Eu sou muito povinho, que esse foi sempre o único ramo decente da família. E é a minha costela popular que me faz olhar com asco para isto, enquanto a minha costela do contra - que é um bocado dada a teorias da conspiração - olha e torna a olhar e lembra-se que nunca há fumo sem fogo. É que se o Deutsche Bank rebenta...