2006-08-04

Amor à queima roupa


aqui

When you're tired of relationships, try a romance.
Quentin Tarantino - True Romance

Não consigo prender os meus interesses a fugazes visões de beleza. Esqueço um pôr do sol, por mais belo que seja, excepto se o engalanar de acessórios onde a memória e a beleza, já unos, se cristalizam. O mesmo para uma flor. Ou para uma obra de arte. Ou para uma figura qualquer.

E onde encontro beleza pode não ser belo para olhos alheios. É sempre um instinto, um reconhecimento íntimo. É um relembrar também. Porque podemos sempre adquirir e cultivar gostos, mas há alguns que nos são quase intrínsecos, como se apenas recordássemos o eco desde o mais longínquo de nós, como se Beethoven ainda soasse esfumado para lá das paredes do útero, ou o cérebro recordasse a cara amiga que nos embalava aos três meses de idade.

Eu gosto de olhos intensos, chamejantes. Figuras quase frágeis pejadas de força íntima. Mãos prontas a dedilhar, dedos finos, tendões e veias visíveis. É essa potência provável no corpo feito frágil que me atrai. A força íntima. O indomável. O ser para além do ser físico, torneado, musculado à pressa e em demasia. Gosto de gente onde só encontro defeitos e, no entanto, reunindo-os, encontro uma identidade própria, bela, sublime.

É que eu gosto de defeitos. Menos os olhos tortos e as unhas roídas. Mas gosto de defeitos. Especialmente se o são de forma equilibrada, como que desenhados por medida. Especialmente se a personalidade que transparece é bem mais do que o invólucro, é um todo apelativo.

Talvez por isso goste de cicatrizes. Vejo-as como marcas, mapas, história. Talvez estejam na minha história, lá atrás no tempo que conscientemente já não recordo, mas que enforma até hoje o meu gosto, o meu padrão de beleza.

E talvez por isso goste tanto do Gary Oldman no
True Romance.

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(um repost, a propósito de uma conversa com a Claire uns posts lá para baixo)

4 comentários:

maria_arvore disse...

E fazes tu bem que as cicatrizes custam muito a ganhar. ;)
E são sinal de experiência de vida e não há pachorra para estarmos a ensinar meninos. ;))
Como dizes, a beleza está no conjunto e de que serve uma aparelhagem lindíssima se o som que sai dela é completamente desafinado?...

Cruzeiro disse...

O conceito de beleza é sempre tão discutivel, o que é belo para uns pode não ser para outros...Mas quando eles têm tudo no sitio, normalmente não valem o esforço. ;-)

Hipatia disse...

Nem mais, Maria Árvore :) Já não há pachorra para muito mais e, com os anos, aprendemos que os gostos - para serem refinados - têm de ser cultivados a preceito ;-)

Hipatia disse...

LOL, Cruzeiro. Isso não sei se é bem assim: depende sempre tanto de para o que os queremos em determinado momento... ;-)