2008-03-08

8 de Março


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Dua Khalil Aswad. Ainda alguém se lembra dela? Fez as manchetes há cerca de um ano atrás porque, no Youtube, alguém pôs as imagens da sua lapidação. E depois foi rapidamente esquecida, como são sempre esquecidas estas notícias que nos revolvem as entranhas por momentos, antes que uma outra notícia nos cause algum asco que transtorne a normalidade de quem vive longe, confortável, cheio de verdades e realidades que nada têm a ver com as realidades e verdades dessas mulheres sempre esquecidas e espezinhadas.

Diariamente são aberta e barbaramente mortas mulheres em vários Países. Morrem por questões que se prendem com conceitos arcaicos de honra, porque não tiveram filhos, porque são consideradas objectos, para lhes ficarem com o dote, porque ousaram um qualquer indício de revolta. Milhares de mortes silenciosas, que todos sabem que existem e ninguém faz nada para evitar. Há muitos outros interesses que vêm à frente dos interesses dessas pobres desgraçadas.

E é ao lembrar-me delas que qualquer discriminação que se queira colar ao Dia da Mulher deixa de fazer sentido. Só fará sentido no dia em que a discriminação não existir de facto. E, olhando o Mundo, quem pode realmente dizer que não é preciso um dia para lembrarmos todas as mulheres, especialmente essas tão diferentes de nós que não têm sequer direito a celebrar dia algum sem permissão de um qualquer dono, seja ele o marido, a família, a religião, ou mesmo as leis dos Estados onde tiveram o azar de nascer?

Este dia é de todas as Dua Khalil Aswad e de todas nós, se o usarmos para lembrar quem é permanentemente esquecido.

6 comentários:

The F Word disse...

Um dia não serve para nada, Hipatia. Num dia só não cabe tanta dor, tanta injustiça. E para o cinismo bacoco da florzinha, um dia é demais.

maria_arvore disse...

A falta de memória é a melhor das máquinas de lavar das injustiças. E por isso, o teu post bate no ponto certo: enquanto houver discriminação para com as mulheres, seja onde fôr, há razão para celebrar o dia. :)

Hipatia disse...

Não, um dia só não serve para nada. Mas uma bandeira hasteada é melhor do que bandeira nenhuma.

Hipatia disse...

Também acho :) E às vezes temo que estejamos tão confortáveis neste Ocidente que já nos garante tantos direitos (ainda que alguns ainda "mancos", como a igualdade salarial), que nos esquecemos facilmente que o Mundo vai muito além do nosso umbigo.

I. disse...

Eu fico ma-lu-ca e com ganas homicidas cada vez que alguém vem com a conversa de que este dia é mau porque nós não precisamos, e não somos nenhumas coitadinhas.

Eu não preciso, felizmente (ou se calhar até preciso), mas e o resto do mundo? Eu tive a sorte de nascer na Europa e viver depois do 25-04, mas e as outras? Caramba, a mulher ainda é a besta de carga do mundo, neste planeta metade da população ainda conta menos que nada, só por não ter pendurezas no entrepernas.

E por cá, no dia em que os patrões deixarem de oferecer uma florinha às empregadas mulheres neste dia mas, em contrapartida, lhes reconhecerem direito a salário igual e em sair a horas para ir buscar os miúdos à creche sem refilar (melhor, reconhecerem o direito a qualquer empregado de sair mais cedo para ir buscar os miúdos), nesse dia fico um cadito mais satisfeita, que é um dia que se aproxima mais da extinção da necessidade da efeméride.

Hipatia disse...

Já deves ter recebido isto no teu e-mail, como eu recebi (já agora, obrigada Maria Árvore), mas deixo aqui, porque pode haver quem ainda não tenha visto:

http://www.womenareheroes.be/?fr