"Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas"
José Carlos Ary dos Santos - Kyrie
Há uma afonia que não é falta de voz física. É o sufoco da alma: um universo inteiro para gritar, mas que esbarra no silêncio do mundo ou na hipocrisia das palavras que não dizem nada.
É o nó na garganta de quem se recusa a viver em tons de cinza, ou a aceitar o amor de plástico de quem nunca ardeu. A sede do visceral. A prece por quem carrega as palavras mais lindas do mundo dentro de si — e as sufoca, por medo ou por desterro.
Para que as palavras deixem de ser preto e branco, é preciso aceitar que proferi-las tem um custo. Não o custo da métrica ou da forma — o custo de quem ouve e reconhece que algo mudou.
A voz sem filtro não é descuido.
É uma declaração.
Recusar o revestimento da linguagem polida.
Recusar o amor que não arde, a paz que não custou nada.
Isso é um ato político — mesmo que só uma pessoa o ouça.
Que a tua voz morda.
Que queime.
Que incendeie o silêncio.
Um vulcão no peito não serve para sussurrar.
Sem comentários:
Enviar um comentário