Fecho os olhos e sinto os pedaços da memória a agruparem-se em fila. Sinto-os em pontas, à espera da vez, para me povoarem novamente das suas energias. Como slides, deslizam, fazem-se presentes.
Lembro uma cara, um sorriso, um fantasma que ainda me habita. Lembro o tempo e o cheiro e até o sabor roubado de uma boca.
Lembro uma sala, um jardim, um copo que vejo umas vezes meio cheio, outras só meio vazio. Sinto ainda um toque gotejante e o som de um riso ténue e respondo com a gargalhada de outrora.
Fecho os olhos e vejo pedaços de mim mofados, encanecidos.
Fecho os olhos e vejo conchas de segredos e ainda sinto a velha maresia que me prende, hoje como antes, às ondas das recordações adormecidas.
Fecho os olhos para me abrir à memória desbotada. Pinto novamente cada slide que desliza e se agrupa e me faz sentir invernos que foram estios e primaveras que nunca despertaram.
Fecho os olhos e vejo cada slide da memória que se esfuma e não lhes encontro já nem as dores nem as alegrias. Só breves tragédias que se vestiram de alegria.
Slides que me invadem quando fecho os olhos. Memórias que me assaltam a consciência e me ferem sem, no entanto, causarem uma dor real.
Slides que deslizam, dando a vez ao que se perfila. Slides com um corpo, um cheiro, uma música — e outros que me afloram ainda a pele com o mesmo toque que um dia foi tudo isso junto.
Fecho os olhos e o tempo escoa-se mas não se esquece. Fecho os olhos e vejo tudo, o que tem volta, o que já não. Fecho os olhos e sinto, ainda, a velha maresia a prender-me às ondas...
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