Há esperas que não cabem no relógio — não por serem extraordinárias, mas porque alguém decidiu que o teu tempo é infinitamente elástico. O teu, claro. O dele mantém-se impecavelmente curto. Estas esperas alongam-se para dentro de nós, ocupando espaços onde antes morava a certeza, agora arrendados à ansiedade com contrato sem prazo e renda sempre atualizada.
A espera tem esse talento raro de parecer inocente enquanto faz estragos: amplifica o silêncio, estica o minuto até ele se tornar quase uma gentileza concedida. Cada possibilidade cresce, dramatiza-se, desfaz-se — e repete o número, porque aparentemente há sempre público para mais um ensaio.
A frase reconfortante chega pontual: "as coisas demoram o tempo que têm de demorar". Dizem-no com a serenidade de quem nunca esteve do lado de cá, onde o tempo não passa — acumula-se.
O coração, esse, mantém-se produtivo: ensaia despedidas, reconciliações, discursos inteiros que ninguém pediu. E nós continuamos a pagar pelos ensaios, como se a estreia fosse garantida. Não é. Nunca foi.
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