Cabo Verde — meio milhão de habitantes e um sonho do tamanho do Atlântico — agarrou-se à extraordinária ideia de que podia mesmo ganhar ao atual campeão do mundo. Empatou duas vezes. Fez Messi suar — o que, convenhamos, já não acontecia desde que ele descobriu que existe uma coisa chamada "assistente pessoal". E chegou ao prolongamento com a Argentina inteira a olhar para o relógio como quem espera pelo metro atrasado.
Depois, como manda o guião não escrito destas histórias bonitas: um golo de Romero e pronto — a Cinderela tropeça nos próprios pés mesmo à porta do baile e a Argentina segue para os oitavos com o ar de quem sobreviveu a um susto e não a um jogo de futebol.
É este o destino ontológico do underdog: existir para dar drama aos outros. Ninguém escreve odes ao favorito que ganha por 4-0 sem se despentear; escrevem-se sonetos a quem perde com dignidade — e ao golo lindíssimo de Cabral que "ficará para sempre na história do futebol cabo-verdiano", o que, tenhamos paciência, é uma maneira elegante de dizer que ficará no YouTube.
No fundo, o underdog é o parente pobre da narrativa desportiva: dão-lhe o adjetivo "corajoso", os holofotes por noventa minutos (e mais trinta de prolongamento) e mandam-no para casa antes que estrague o final feliz de outra pessoa.
Cabo Verde, parabéns. Foram lindíssimos a perder. É, aliás, a única coisa em que nós, os pequenos deste mundo, temos sempre uma medalha de ouro garantida.
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