Há uns milhares de anos, alguém na Índia escreveu sobre um carro voador dourado, capaz de atravessar continentes — a Pushpaka Vimana do Ramayana. Poesia épica, simbolismo religioso, uma bela metáfora sobre poder divino e destino. Devia ter ficado por aí. Mas não.
Em 1923, um místico indiano alegou ter recebido por via psíquica um texto ainda mais antigo, o Vaimanika Shastra. Já não era poesia. Era supostamente um manual técnico, com capítulos sobre hélices, ligas metálicas e motores a mercúrio. Porque, aparentemente, uma tese só ganha estatuto científico se envolver metais pesados e vocabulário esotérico.
Foi aí que o literalismo moderno — essa incapacidade crónica de ler entrelinhas — fez o seu truque favorito: pegou no mito e leu-o como se fosse um manual da IKEA mal traduzido. O carro voador passou a aeronave, o símbolo virou esquema eléctrico, e ficámos todos à procura do parafuso Allen que faltava nos Vedas.
Depois vieram os outros. Os mesmos que traduziram o Enuma Elish como relatório de aterragem. Os Anunnaki sumérios que aterraram para ensinar geometria porque, claro, a humanidade nunca teria chegado lá sozinha.
É a fórmula perfeita: a arqueologia fantástica como álibi elegante para despojar a humanidade da sua própria inteligência. Sobretudo a humanidade errada.
Stonehenge também tem a sua quota de discos voadores na cultura popular, é certo. Mas ali raramente se questiona a continuidade. Ninguém duvida que os britânicos de hoje descendem de gente capaz de arrastar pedras. Chegue-se a Gizé, a Tenochtitlán ou a Cuzco, e de repente há um corte. A engenharia de precisão torna-se uma ocorrência paranormal. Os egípcios sabiam construir, sim — mas alguém lhes deve ter ditado as equações.
Talvez um extraterrestre. Talvez um caucasiano. Idealmente, ambos.
O mecanismo é particularmente curioso. Quando lemos os mitos indianos ou o Enuma Elish, percebemos que estamos perante cosmologias: histórias que os seres humanos inventaram para explicar o mundo, os deuses, o destino e o lugar que ocupavam no meio de tudo aquilo.
O problema não é só o que esse roubo faz ao passado. É o que treina o cérebro para fazer no presente.
Porque, quando se aprende a ler uma narrativa simbólica como se fosse um relatório factual, não é difícil acabar a fazer o mesmo com as narrativas do nosso tempo. Já não temos cosmologia. Temos a Terra plana, répteis no parlamento e governos secretos comandados por sabe-se lá quem. O pensamento simbólico dá lugar à conspiração e a vontade de compreender o mundo transforma-se numa revelação privada: eu sei o que vocês ainda não perceberam.
No fundo, trocámos os deuses por extraterrestres e chamámos-lhe abertura de espírito.
Antes, a divindade descia para inspirar a alma; agora, o alienígena desce para ensinar a fazer argamassa. Tão obcecados ficámos com a tecnologia que até os nossos mitos sofreram um downgrade funcional.
E há uma diferença fundamental, quase trágica.
Os antigos diziam: os deuses inspiraram-nos a fazer isto.
Nós dizemos: os humanos eram demasiado ignorantes para ter feito isto.
Inventámos extraterrestres para não termos de admitir a grandeza intelectual daqueles que nos precederam.
Talvez seja essa a parte mais estranha da história. Os antigos precisavam de deuses para explicar os seus feitos. Nós precisamos de aliens para lhes tirar o mérito.
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