Nem o medo nem a culpa, que a cultura judaico-cristã nos ensinou a carregar, lidam bem com qualquer resquício de felicidade. É suposto sermos filhos de um Deus castigador e castrador e irmãos de um outro Deus flagelado. A pomba, acho que só lá esteve sempre para enganar...
E se enganava, o que sobra?
Sobra este reflexo quase automático: pedir desculpa por estar bem. Baixar os olhos quando a alegria é grande demais. Dizer “é só uma fase boa”, como quem diz “não se preocupem, já passa”.
Fomos ensinados a fazer a gestão da infelicidade. A dar-lhe nome, novena, terapia, conversa. À felicidade, não. A felicidade tem que ser merecida, moderada, dividida em porções pequenas para não dar inveja a ninguém — nem a Deus, nem aos outros, nem a nós próprios.
O medo e a culpa lidam mal com a felicidade porque a felicidade não pede licença. Acontece. Chega sem curriculum. Sem ter feito por merecer. E isso, numa cultura de mérito e castigo, é quase obsceno.
Talvez des-culpar seja isso. Não é ficar sem culpa. É aprender a ficar com a felicidade mesmo com a culpa ao lado, a resmungar no canto.
Não mandar a culpa embora. Só deixar de lhe dar a presidência da mesa.
Não dizer “desculpem a felicidade”. Dizer “olhem, estou feliz. Apesar de tudo. Com tudo. E fico mais um bocado.”
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