Começam a chegar em Julho, pálidos como hóstias, vestidos de linho caro e expectativa. Trazem factor cinquenta na mala e uma fé cega no sol português, como se este fosse mais generoso do que o deles só por estar a sul. E o sol, esse cínico, não os desilude: ao fim de vinte minutos de esplanada já estão da cor de um marisco cozido, a pele em festa, o "ai" a tornar-se dialecto.
Eu, por outro lado, fico ali sentada, intacta, a ver o espectáculo com o distanciamento de quem já sabe como a peça acaba. A minha pele não se rende a drama nenhum. Aloira, talvez, com a paciência de quem envelhece um queijo — devagar, sem euforia — e nunca, nunca chega ao vermelho. É como se o sol olhasse para mim e decidisse que não vale a pena a encenação toda.
Há qualquer coisa de profundamente injusto nisto, confesso. Eles pagam a viagem, o hotel, o guia turístico que lhes mente sobre a autenticidade das sardinhas, e ainda pagam com a pele, em queimadura pura. Eu não pago nada. Fico ali, bronze insuportavelmente razoável, enquanto ao meu lado um dinamarquês se transforma lentamente num pimento assado, perguntando à mulher, entre gemidos, se "isto é normal".
É, meu caro. É Portugal. Aqui o sol não faz distinções de classe, mas faz — e com gosto — distinções de pigmento.
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