Vinte e quatro horas. É quanto dura, por contrato tácito, uma vida inteira num ecrã. Passado o prazo, o conteúdo caduca como o iogurte, e ninguém se lembra de o ter comido.
Chamam-lhe efémero e vendem-no como leveza. Eu chamo-lhe amortização acelerada: o momento nasce já depreciado, lançado a custos de imagem, e o retorno mede-se em corações. Ninguém pergunta pelo capital.
Faço o inventário, que é o que sei fazer: o pôr-do-sol que ninguém viu, porque estavam todos a filmá-lo; o jantar que arrefeceu à espera da fotografia; o concerto visto a três centímetros do telemóvel alheio; a dor, com filtro.
O culto tem liturgia e tem clero. A liturgia é a hora óptima de publicação. O clero são os que já perceberam que a autenticidade é um género, com regras de estilo, e que a espontaneidade se ensaia. Há quem chore em directo com uma iluminação impecável. Não duvido da lágrima. Duvido do ângulo.
Deixou de ter opiniões e passou a ter posicionamento. Deixou de estar triste e passou a partilhar. Deixou de viver e passou a cobrir o evento, sendo o evento ele mesmo. Horas extraordinárias que ninguém lhe paga.
O mais curioso é que o efémero, hoje, é precisamente o que fica registado. O que se apaga em vinte e quatro horas está guardado num servidor algures, com data, hora e localização. Os antigos temiam a posteridade; nós contratámos um arquivo sem os incómodos da memória.
Ontem, à mesa, ninguém falou. Estavam todos ocupados a documentar o jantar.
Nas fotografias, parecíamos felizes.
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