Houve um tempo em que uma lomba era um acontecimento. Tinha localização, tinha motivo e, nos casos mais solenes, tinha uma escola ao lado. Hoje é uma espécie invasora. Não tem predadores naturais, reproduz-se na Primavera, no Verão e nas reuniões de junta, e já ocupa todas as ruas onde passe mais de um carro por dia. Se o segundo carro for o do vizinho, que sai de casa de marcha-atrás, melhor ainda: justifica-se logo uma dupla.
Registo, para que conste, que não sou contra. Conheço o condutor português. Já o vi a trinta à hora no parque do centro comercial, com a gravidade de quem transporta um rim para transplante, e depois a cento e dez numa rua onde há roupa estendida. Deixado ao seu critério, qualquer artéria com mais de cinquenta metros de recta torna-se o circuito do Estoril, com semáforos opcionais e peões como risco calculado. A lomba é o único argumento que ele entende, porque lhe fala directamente ao bolso.
Mas uma coisa é a lomba, outra é a lomba que desfaz carros. Há as que pedem ao condutor que reconsidere, quase com carinho. E há as que o interrogam. Essas arrancam o tubo de escape, desalinham a direcção e ainda levam duas obturações de brinde, a vinte à hora. Ninguém sabe o que as ditou: o rigor técnico ou um desentendimento antigo com o dono do stand.
Daí a pergunta que faço com a ingenuidade de quem ainda acredita em regulamentos: existe norma para a altura? E para o comprimento, o perfil, esse «diâmetro» que numa lomba é conceito poético? Existe, em certo sentido. O regulamento de sinalização define a lomba redutora de velocidade e estabelece a respectiva sinalização, incluindo o xadrez a pintar no asfalto. E há uma nota técnica sobre a instalação, com critérios geométricos, estudos prévios e lugares onde não convém pô-las. Uma nota técnica. Não uma lei, não uma portaria: uma nota. Tem critérios, tem números, tem estudos prévios. Só não tem força de lei. Num país onde pendurar um toldo exige licença, parecer e três fotocópias autenticadas, a obra mais agressiva da via pública fica entregue a critérios técnicos que não têm força vinculativa.
No meu ofício chamaríamos a isto um produto sem prospecto: toda a gente subscreve, ninguém leu as condições e quem paga é o cliente, em prestações, na oficina.
O trânsito, que não é parvo, foge para a rua sem lombas. A rua sem lombas enche-se, os moradores queixam-se, a junta ouve, e nasce mais uma lomba. É o ciclo de vida do coelho, com a diferença de que o coelho, ao menos, não custa seiscentos euros em amortecedores.
Entretanto a minha suspensão e eu seguimos o método de sempre: devagar, sem pressa, a pedir desculpa ao chão.
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