2014-08-28

Está de chuva...


Tenho andado para aqui a queixar-me, muito ou pouco, não importa agora. Mas a queixar-me, ainda assim. Há também um ar de desmaio em quase tudo o que escrevo e, quando sinto assim as palavras queixosas, melancólicas e abatidas, tendo a encolhê-las, desarmando a exposição prolongada ao seu feitiço. 

É que estas coisas das palavras apenas, especialmente por esta altura, deixam-me um travo tristonho nos sorrisos. Como sempre, sinto tudo demasiado pouco, sôfrega que sou de pedir o sol para ver se me calha a lua. Não queria só palavras. Queria quem as diz e as escreve, mas foi tudo a banhos. E queria que o Porto não me parecesse tão longe de sítio nenhum, tão longe dos meus sítios, que são, essencialmente, os meus afectos. 

E, sim, eu acredito mesmo que nenhum de nós é uma ilha e, hoje, sinto como se eu fosse só o farol perdido na extremidade mais distante da ilha mais longínqua do arquipélago mais remoto. Tão longe, mas tão longe, que nem cá chega o sol deste Agosto enevoado.

2014-08-03

Dos silêncios

Hoje não me apetece escrever. Tenho uma música a tocar baixinho, um cigarro entre os dedos e mil e umas futilidades a bailarem-me no pensamento. Não é que não me apeteça escrever, no sentido de dar respostas. Isso já fiz hoje. Muito. Quantas vezes me interpelaram. Tanto que talvez tenha esgotado as palavras por hoje. Ou, se calhar, só não me apetece escrever sobre futilidades enquanto, baixinho, toca esta música. Mas também não é bem só dar respostas. Porque também não me apetece fazer perguntas. Talvez seja mesmo da música que, aqui ao lado, vai tocando baixinho. Enche-me de paz, de espaço. Leva-me em ondas, faz-me beijar praias de silêncios e harmonia. Toca baixinho uma música, sem futilidades. Baixinho, baixinho. Quase em silêncio. No silêncio onde, depois disto, vou depor por hoje as palavras.

Escrevi (publiquei, pelo menos) este texto às 19:59h do dia 16 de Setembro de 2004, quando chegava a casa e escrever era um refúgio, antes de perder realmente a vontade de escrever e depor por dias as fio as palavras.

A que vem agora a isto? A um artigo que li. Deixo o link. E pergunto-me quantos deram conta como, ao fim de anos e anos sem resistir a uma página branca, as palavras me são tão escassas ultimamente. Afinal, estou aqui como sempre estive, não desapareci com as tais palavras que me comandavam as rotinas. Anos de palavras, tantas: primeiro em chats, depois em fóruns, o blogue ainda meio vivo que teimo em não alimentar e que faz este mês mais um ano, agora o FB e talvez um dia destes outra coisa qualquer quando o FB me irritar definitivamente com a forma intrusiva como quer comandar as minhas palavras, apropriar-se delas e, junto, levar de vez a reserva com vivo a minha vida.

Reserva? Reserva, sim. Por mais que durante tanto tempo tenha exposto se calhar demais em textos e textos que continuam online para quem os souber encontrar. Reserva no FB mais ainda, por me ser desconfortável a rotina bigbrotheriana do que estás a fazer, em que estás a pensar, os gatinhos são lindos e os memes para partilhar.

Talvez a maioria das pessoas que me conhece não tenha dúvidas em classificar-me como extrovertida. Afinal, não tenho quaisquer problemas aparentes em conhecer pessoas novas, entabular conversas, conseguir algumas gargalhadas e, deixar, no fim, o outro perfeitamente à vontade comigo e com a situação. E não sou tímida, nunca fui. Nem tenho papas na língua e posso, quando quero, possuir uma candura e uma franqueza desarmantes, por vezes brutais.

Mas talvez vista demasiado bem cada um dos pontos do tal artigo de que deixo o link; talvez por isso tenha a certeza que conheço muita gente, mas muito pouca gente me conhece verdadeiramente. E também por esse motivo dar aulas me exauria tão completamente ou todos os dias parece que só ao fim do segundo café consigo ligar o botão do “on” e encarar o dia de trabalho e de sociabilização forçada como mais uma maratona que se escoa até a um entardecer de silêncios e de carregar baterias a sós. Ou tão simplesmente porque não telefono, não gosto de falar ao telefone, estou meses sem pôr conversas em dia e porque sou aparentemente tão desligada das anedotas da vida de pessoas que não sei bem quem são, quem foram, quanto tempo moraram na minha rua e quantos dias partilhei de aulas na escola primária, que esqueci completamente. Ou porque nunca gostei de cliques, claques e tribos, nem tenho uma agenda a rebentar pelas costuras com planos para todos os dias da semana, ou simplesmente porque estar sozinha ou estar só nunca foram a mesma coisa no meu dicionário e a sociabilização forçada, tantas vezes gratuita, tantas vezes sem sentido – a meus olhos, claro! – tem a ver apenas com quando e onde estou disposta a ligar o botão do “on” e fazer parte da festa ou, pelo contrário, ficar um pouco de lado a medir o que se passa, deixando-me levar pela corrente em lugar de precisar estar no meio das ondas, a fazer as ondas, todos os segundos. 

2014-07-09

Telhados de vidro

Ouvi demasiadas piadas de brasileiros a propósito da Selecção. Comi e calei. Depois de ontem,  não chego a ter coragem para fazer piadas com a selecção brasileira e não vou bater mais no ceguinho. Mas não consigo deixar de lembrar a quem tão rápido andou de piada em riste que não se deve cuspir para o ar e num instante a piada do 4 se tranforma na vergonha de um 7. Em casa.

2014-06-10

Horta à janela

 fonte

Ah, meu Portugal! 

Ele há dias em que só tenho vontade de atirar tudo para trás das costas, largar a cidade já demasiado grande e partir para uma vida nova, lá onde ainda as águas se abrem em piscinas no meio do rio ou onde um engarrafamento se mede pelos dois carros que resolveram sair à rua à mesma hora. 

Fugir para onde as pessoas ainda vivem em casas e têm quintais e roseiras a colorir a ombreira da porta. Estacionar a minha vida lá de onde toda a gente fugiu e onde eu jurei que saberia ser feliz, houvesse investimento e emprego e mais do que a paisagem. 

Viver no meio da lonjura e ter uma casa branca, com roseiras por baixo das janelas e com ombreiras das portas coloridas e um jardim com uma macieira perfumada e um banco debaixo de um caramanchão florido e uma noite que ainda deixa ver estrelas e onde o barulho é feito apenas de cigarras e grilos, pássaros e árvores balançadas pelo vento, ou algum riacho mais caudaloso. 

Mas os sonhos não enchem barrigas nestes pedaços do País cada vez mais despidos de gente, onde já quase só sobram os velhos e não há esperança na raia fronteiriça do esquecimento. E não posso ir!

2014-06-04

We were watching T.V.

Pergunto-me se Tiananmen é ainda espinho encravado na realidade da propaganda e na realidade que, afinal, veio depois. E penso que talvez os rostos e corpos já tão distantes no tempo e na geografia nunca puderam ser apenas números. Aquela realidade televisionada para que todos vissem nunca deixou que a barbárie fosse apenas um roda-pé na história.

2014-05-25

Voto


Nos tantos anos em que voto, nunca vi as mesas de voto tão vazias. O problema é que quando os moderados acham que já não têm lugar na democracia e que não serve para nada exercer o seu direito e dever cívico, então a democracia acaba refém dos extremistas, os únicos que parecem ainda ter capacidade mobilizadora. E talvez um dia destes acabemos com um Le Pen à frente da Comissão Europeia e um Parlamento Europeu dominado por neo-nazis, deitando enfim por terra o sonho de Schuman e Monnet.

2014-05-24

Amanhã


«to make all men work together, to show them that beyond their divergences or over and above frontiers, they have a common interest.» 

Jean Monnet 

Que fazer se, apesar de tudo e especialmente apesar do agora, eu ainda acredito?

2014-05-20

She lives in a world she didn't choose



There is a woman in Sudan...

Assustam-me os diferentes relatos que vão chegando de sociedades fundamentalistas e o desrespeito crescente pela figura feminina. É um regresso à barbárie com base numa estrutura obstinadamente patriarcal, dogmática e neurótica. Pergunto-me se as mulheres assim acabrunhadas reconhecem ainda que o domínio imposto advém vezes demais do medo e que, necessariamente, tem de haver um reconhecimento de que o sexo da força bruta é, a muitos - demasiados! - níveis o sexo menos evoluído. E, no entanto, até as bestas tiveram mães...

2014-05-08

Há barbaridades e depois há coisas para as quais nem tenho nome!


«Recentemente, mais de 200 raparigas estudantes foram raptadas por um grupo armado na Nigéria para serem vendidas como escravas sexuais, ou a fim de serem forçadas a casar.»

«As autoridades nigerianas precisam de saber que o mundo está solidário com as alunas raptadas e as suas famílias. Juntem-se a nós e exijam a libertação imediata destas crianças e adolescentes.»

Assinar a petição aqui.

2014-05-01

Primeiro de Maio

Hoje, quando parece que o povo de um Maio de há 40 anos está vencido e achincalhado, ponho maias à porta contra o carrapato e outras bestas.