2005-11-12

O Fiel Jardineiro


aqui


Há alguns filmes que nos perseguem, como se acordássemos no meio de um pesadelo, sabendo que é real, impotentes perante a tragédia, a dimensão da hecatombe, o feia e suja que é a realidade.

Até hoje, tinha três filmes como exemplos acabados disso mesmo: The Killing Fields, Biko e A Lista de Shindler. Todos eles filmes politicamente comprometidos, um grito, um drama personalizado. Todos eles baseados em histórias de alguém, centrando a tragédia na personagem para contar da tragédia de todos. A parte pelo todo. O exemplo.

Hoje, acrescento-lhes - e assumo que, provavelmente, passará a estar no topo dessa lista -, The Constant Gardener, de Fernando Meirelles, o mesmo que já nos tinha presenteado com A Cidade de Deus.

Por uma vez, o grito é anónimo, no sentido que as personagens são fruto da imaginação de John Le Carré; por uma vez, a dor que nos trespassa não vem do sabermos que a odisseia das personagens principais é verdadeira, que existiram mesmo, que precisam ser lembrados. Antes, por saber que estão lá para contar de uma tragédia maior ainda, maior do que poderíamos imaginar.

Desta vez, lembra-se todo um continente, todo um povo peão dos interesses sujos dos donos do dinheiro e dos interesses políticos prostituidos. E acompanha-se a história com aquele nó apertado na garganta, parte culpa, parte raiva, parte indignação, parte impotência.

E, no entanto, é bem mais que um manifesto político, é bem mais do que um thriller, é bem mais do que a exposição das verdades que o Ocidente não quer ver. The Constant Gardener é, também, uma belíssima história de amor. Um amor que se faz de fidelidade, de coragem, de auto-sacrifício, de querer acreditar que a verdade não é a que nos querem vender, mas antes aquela que nos querem ocultar.

Se tudo isto não bastasse, estão lá os actores: Ralph Fiennes e Rachel Weisz. Grandes, magníficos, intensos, profundamente verdadeiros. E as imagens de África na soberba direcção de Fernando Meirelles, que nos atira para o meio da história: umas vezes lindas o suficiente para nos tirar a respiração; outras com a dimensão das tragédias que só podem ser contadas em silêncios dolorosamente amordaçados.

E foi silêncio o que se fez na sala de cinema, mesmo depois de terminado o filme. Porque não havia palavras, quaisquer palavras, para dizer o tanto de sentimento que nos invadia o peito, fazia saltar algumas lágrimas, ou nos agrilhoava a garganta num soluço sufocado.

A ver. A ver mesmo.

7 comentários:

jp disse...

:-)limpei o ranho discretamente na parte de dentro da manga.Acho que o gajo do lado topou,mas estava tão atarefado a tentar ver através do mar que lhe ensopava as lentes, que nem voltou a olhar.
Há filmes e dias assim, como o tempo que nos adormece.
beijitos hipatialudovina

Hipatia disse...

Belíssimo filme, não achaste? Que nos choca mais com o que esconde do que com aquilo que realmente mostra. E aquela criança abandonada, com o cão pela trela, partiu-me o coração!

ccc disse...

Concordo com tudo o que escreveste e acrescento a realidade tão fielmente gravada. Aquelas ruas são mesmo assim, só faltava o cheiro nauseabundo para me sentir de novo em Africa.
Por mais que se fale no assunto, ver dá-me um murro no estomago.
Adorei a actriz com o seu sorriso contagiante.

Hipatia disse...

Até a opção do Fernando Meireles de não ter câmaras fixas ajuda a essa sensação, não é? Como se também nós estivéssemos ali a viver a história. E, ainda assim, demasiado impotentes.

E o estranho é que o nome do filme nem é nada apelativo. Confesso que se não me tivessem oferecido há tempos o livro de Le Carré era bem capaz de o deixar "escapar". Mais estranho ainda, por uma vez acho que a adaptação supera em plena o livro onde se baseia. Mérito em especial da garra da Rachel Weisz que, se Hollywood não andar a dormir como de costume, ganha um Óscar lá para Março :))

Cristina disse...

hei-de ver o filme :)
e achei que gostarias de ler isto
http://hollywood.weblog.com.pt/arquivo/2005/10/antevisao_the_c.html

beijinhos

Hipatia disse...

Fui espreitar o site que me indicas, Riquita. E descobri isto:

"Este não é o filme que o vai chocar, entusiasma-lo ou abanar o seu mundo. Em vez disso vai mexer consigo, colar-se a si, vai faze-lo parar para pensar e deixar efeitos difíceis de descrever - o que é algo que os grandes filmes fazem sempre." (Kitt Bowen - Hollywood.com)

Tivesse sabido eu dizer em tão poucas palavras o que está assim magistralmente resumido...

E o filme é obrigatório. Logo me dirás, depois de fixar por uma última vez os verdes olhos de Ralph Fiennes, se não tenho razão para estar tão maravilhada :)))

Hipatia disse...

Mais Vozes

Hipatia, ainda me estou a rir por causa da minha gaffe. Não , pois não, não és tu que vais a Pisa. Desculpa! Fiz confusão com outra blogger que por acaso vem aqui muitas vezes à tua casa. E tb lhe respondi a ela o comentário que tu deixaste na "lilly"!!! Acho que eu é que preciso de ir para Pisa ou outro lugar ... repousar

Mas queria mesmo que aparecesses (enfim, nem sei se moras muito longe),
gostava de conhecer estas mulheres e homens das letras da blogosfera.

Além de que te imagino uma companhia bem divertida... Vê lá se arranjas o "bichinho".
MRF | Homepage | 11.12.05 - 3:07 am | #

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Não posso ficar sem carro durante a semana, mrf. E, como hoje precisava dele e o gajo tem de ir à estufa, ficou combinado que fica a arranjar sexta-feira e sábado. E só o devo voltar a ver na segunda. Fico, por isso, "apeada", já que não dá para ir e vir a Aveiro, mesmo não sendo longe. Afinal, do Porto aí serão uns 3 quartos de hora, se tanto, não é? Bem, acho que depende do pé que carrega no pedal... e o meu é para o pesadito
Hipatia | Homepage | 11.12.05 - 3:13 am | #

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Logo veremos, talvez te arranje boleia
MRF | Homepage | 11.12.05 - 3:23 am | #

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Logo que tenha tempo,vou ver isto. Ah pois vou.
Angela | Homepage | 11.13.05 - 1:13 am | #

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Depois vemos então, mrf
Hipatia | Homepage | 11.14.05 - 3:01 am | #

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Vale a pena, Ângela. Vale mesmo a pena. E prepara-te para uma qualquer lágrima sorrateira, mesmo que o objectivo principal do filme não seja pôr-nos a chorar...
Hipatia | Homepage | 11.14.05 - 1:12 pm | #

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É um filme muitíssimo poderoso. fartei-me de chorar, nem sei se por saber que aquilo acontece mesmo ou por eu já o saber e não ter ligado.
Às vezes é na pena de um ficcionista e na tela de um cinema que nos confrontamos com a pior realidade, somos obrigados a olhá-la de frente e assumir que somos cúmplices, no silêncio.
Dói; a impotência e a cumplicidade.
(só hoje consegui cá entrar, o blogue não carregava no meu computer...)
Lisa | Homepage | 11.15.05 - 11:13 am | #

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Não conseguias entrar no blogue porque o CommentThis! (As Vozes) teve um treco, Lisa. E eu andava a tentar tirar férias

Quanto ao filme, tens razão, claro: somos todos cúmplices no silêncio. E também porque não questionamos os benefícios nem como foram alcançados.

Mas será que o filme seria tão poderoso se o realizador não fosse um sul-americano? Talvez tenha mesmo um olhar diferente sobre a realidade que nós, apesar de tanto nos queixarmos diariamente, já não sabemos sequer imaginar.
Hipatia | Homepage | 11.15.05 - 10:54 pm | #