2006-05-15

Ausências


aqui

O início de Maio costuma ser sempre um período fdp para mim. Mais por hábito que outra coisa qualquer, canso-me de mim mesma, agonizo em ritmos repetidos e faço balanços. Por costume, não me agrada o resultado e entro num buraco de autocomiseração insuportavelmente mofado e datado.

Estafa-me sempre o tanto que comprometi a vontade a esta coisa de crescer e ter responsabilidades, enquanto alinho todos os objectivos que não atingi, subtraio todas as encruzilhadas e acrescento novos caminhos. Depois de mais uma contabilidade, sinto-me quase sempre demasiado velha, demasiado cansada, demasiado gasta.

Com o seguir do mês, deixo que a Primavera me invada e tomo fôlego para o tanto de cansaço que se avizinha, quando ao serviço dobrado ainda acrescento as férias dos outros e, no rescaldo, sobra sempre muito pouco tempo para o lamber das feridas.

De seguida, já de gatas, tacteio o resto do caminho até três semanas de férias porem em ordem as prioridades. Mas Maio é fdp mesmo! Fica a meio do caminho, é um nim que não gosto, este ver o tempo a esquentar e os dias a crescerem e eu fechada, com horário prolongado para bem além do que seria meu, com pilhas e pilhas de papéis amontoados e a sem vontade do costume para limpar toda a tralha, como nunca fui capaz de limpar a tralha que acarto na memória.

Seria um bom período para entrelaçar letras e ordenar palavras e espalhá-las por aqui e por casas amigas. E, no entanto, este ano as coisas não me correm como previsto, ou sou só eu que, finalmente, inverti a tendência de mais de uma década.

Na verdade, não me apetece ter pena de mim, nem fazer a contabilidade. Ou estar fechada em frente a um computador a inventar vida e Primavera, ou a recontar a vida e a Primavera. Apetecem-me as esplanadas ao fim da tarde, o chilrear dos pássaros ao vivo, as conversas dos outros apanhadas à socapa, a vida em directo.

Apetece-me um corte, um que não suture demasiado depressa, um que infecte até. Poderia inclusive ser dolorido e, de permeio, injectar vida nova em mim. Fazer uma cicatriz pequenina, marcar mais uma linha, estabelecer a fronteira entre o ontem e o hoje.

Estou com vontade de arejar tudo, de expurgar o acessório. Estou com vontade de quebrar rotinas e vícios. E a Voz vai pagando. Porque tem sido ao longo deste tempo todo um Norte, mas é um ponto cardeal estafado de rotinas e vícios. Um deles serão os tantos de cigarros que acendo para queimarem entre os dedos enquanto tento escrever seja o que for. E, se quero diminuir os cigarros, o ritmo de escrita terá de abrandar também. Uma concessão necessária, uma quase obrigação.

Não é ainda um fim. Sou demasiado teimosa. É só mesmo um espaço que preciso. Reduzo, por isso, a(s) dependência(s), mesmo consciente de que sem o vício de escrever não sei existir.

31 comentários:

sofia. disse...

Parecia que me lia... :)
beijinho

deep disse...

Parte (grande parte) poderia discorrer de mim, sem a mesma fluência e adequação de termos. Como tu, tenho datas para a autocomiseração, que arrasta uma visão distorcida dos que me rodeiam e da relação que tenho com eles, embora sinta que, de há algum tempo a esta parte, tenho cedido menos aquilo que considero caprichos de menina mimada - apesar de os mimos serem cada vez manos- que recusa veementemente crescer e teme assumir responsabilidades. Se tiveres que quebrar rotinas, não deixes que a Voz se extinga.
Bjs e fica bem.

Alien disse...

Ao ritmo a que os meses correm ultimamente, eu não me preocuparia muito com a chegada de um em particular. Mesmo agora estremeci com o 15 no topo do teu post. No entanto, os marcos da nossa vida acontecem em datas, inseridas em meses. E se as datas passadas nada significam para mim, já as presentes me ocupam a tempo inteiro.
Agrada-me pensar que, neste maio, te apetece viver a primavera...

espumante disse...

gosto da forma como escreves. Independentemente da substância...
Beijinho

Elipse disse...

Cada um de nós faz isso mesmo em determinadas alturas.Em mim é o mês de Dezembro, mas poderia recordar Maio como uma altura igualmente fdp, porque com o passar dos anos vamos acumulando poeira e mais poeira... merda para a poeira, que teima em impedir-nos de aproveitar os instantes...

E percebo-te na necessidade de refrear este ritmo.
Um beijo

(vemo-nos em Aveiro?)

Lisa disse...

A astenia primaveril apanha-nos a todos :/ Caramba, parecia que me estavas a descrever!
Descansa e renova-te. Tudo o que é modorrento, chato e cansativo tem um fim.
E depois... cá nos vemos!
Beijoquinha

cidadão comum disse...

escrever é o melhor dos vícios.

CAP disse...

A bússola está marada, não vás por esse norte. Há outros, bem mais "estrelados". ;)

jp disse...

vou-te dar umas caroladas em Aveiro, ou não,petite Calimero?

Hipatia disse...

Às vezes é assim, Sofia: anda uma qualquer onda no ar e todos parecemos sentir coisas parecidas :)

Hipatia disse...

Este ano, Deep, estou a tentar fazer diferente, atirando para longe a rotina mofada dos meus ritmos de Maio. E mesmo os ameaços de tristeza que fui deixando pela Voz, doeram bem menos este ano. Este post, mesmo não parecendo, é de esperança em mim ;-)

Hipatia disse...

Isso, Alien: sair para a rua e ir aproveitar cada restinho de dia, depois de um dia de rotinas e prisões :) E esquecer as datas demasiado pesadas, para saborear o agora e o que há-de vir...

Hipatia disse...

Talvez a substância pouco importe. É que às vezes acho que só escrevo coisas simples de forma demasiado complicada :))

Obrigada, Espumante. Beijo

Hipatia disse...

Sem dúvida, Elipse. E, às vezes, quando damos conta, a poeira concentrou-se de tal forma que virou um autêntico calhau de Sísifo, que nos condena encosta acima e abaixo.

A ver se é desta que o calhau vira "a minha coisa" e deixa de pesar ;-)

Quanto a Aveiro ainda não sei. Estou de férias nessa semana e depende onde estiver e com quem estiver :)))

Hipatia disse...

Lisa, é que é mesmo isso: muito mais do que o corpo, tenho o pensamento fadigado. E não é culpa de ninguém, excepto minha. Está na hora de fazer alguma coisa e... vou tentar faze-la ;-)

Logo nos vemos, claro, que não vou desaparecer e se, como já ameaçaram, vier a chuva, talvez ainda mais rápido do que pensava, eheheh

vanus disse...

Xiii...o que para aqui vai... tu às vezes és tão transparente...que isto soa-me a pedido de desculpas...tss...tss...life is to short...

Estou como o Cap, a sul, sempre a sul lol :p

Hipatia disse...

Ajuda-me a pôr as ideias em ordem, Cidadão Comum. Mas nem sempre é bom publicar qualquer coisa, que um blog feito de "moods" de mulher pode ser uma montanha russa. E há alturas em que quase me apetece plagiar o António Nobre: "mas tende cuidado/não vos faça mal..."

Obrigada pelo link :)

Hipatia disse...

A bússula já está marada há demasiado tempo, Cap. Ando a pensar em rifá-la :)))

Hipatia disse...

LOL. E eu a pensar que estava a fazer tudo, menos a armar-me em Calimero.

Não sei ainda, Jaquelina Pandemónio. Como disse ali acima à Elipse, vou estar de férias nessa semana. E tudo depende de... bem, depende de tudo ;-)

Hipatia disse...

Não vem que não tem, miga :))) Lá porque sou transparente para ti, não quer dizer que não seja uma mocinha muito complexa. Mas, se queres saber, mais de dez anos depois, está a ser bem mais leve. Finalmente! E, sim, podemos dizer que o Sul também teve alguma influência ;-)

ACENDALMA disse...

Também eu nunca soube limpar a tralha que carrego na memória... e a vontade de arejar tudo está sempre presente.

Talvez

TheOldMan disse...

Escrever é sempre um bom meio, nunca um fim.

;-)

Anónimo disse...

O Sul é sempre o caminho. Há dúvidas? Cá escrever, agora. Balelas.
E claro que não vai haver Aveiro para ninguém, lol...
Bjs, Alien

Zu disse...

Acho que te entendo, Ruivinha. E fico contente pela tua vontade de arejar, de sacudir a poeira, mesmo que isso signifique não te ler com a mesma assiduidade.
E por acaso, mesmo sendo eu nortenha de origem, também acho que o Sul é que é o caminho a seguir ;).

vanus disse...

Bem, mas que Alien tão decidido :p

Será que é verde?

Hipatia disse...

A memória pode mesmo ser muito indigesta. Mas também faz de nós o que somos. Não saberia viver sem a minha, ainda que me pese tonelada tanta vez.

Bem vinda à Voz, Acendalma

Hipatia disse...

Claro, Old Man. Mas quase sempre ilumina-me o caminho. Outras vezes... nem por isso. E acho que estou na fase do "nem por isso" ;-)

Hipatia disse...

Balelas? Para Sul? Qualquer reclamação, faz favor de a apresentar a Norte :PP

Hipatia disse...

Acho que já tivemos esta conversa, Zu. E acho que já te disse que te acho uma traidora às origens, que isso de ter nascido por cá, não chega :)))

Mas é certo que, por vezes, temos de virar noutras direcções. Mesmo se ficam a Sul ;-)

Ando por cá, não há perigo. Mais até do que pensei. Hoje está tempo de trovão e nem apetece sair. Mas vou ao cinema, claro :))) É só uma questão de começar ;-)

Hipatia disse...

É verde é, migas. Ou, pelo menos, foi ficando mais verde, enquanto eu torcia pela vitória dos azuis em Alvalade :)))

Anónimo disse...

Mais Vozes

Antes um ritmo lento que parado. Não permitas que acabe. Sim?
Ricardo Garcia | Homepage | 05.16.06 - 3:20 pm | #

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Não sei parar, Ricardo. Serve assim?
Hipatia | 05.16.06 - 10:10 pm | #

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Vê lá se precisas de um enfermeiro para fazer o curativo na ferida. Olha que também existem certas infecções que afectam a capacidade de tomar banho sem uma ajuda prestável.
PN | Homepage | 05.17.06 - 1:12 am | #

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Estás a propor-me uma nova arquitectura da coisa, PN?


Hipatia | 05.17.06 - 5:57 pm | #