2006-05-26

Desafio


Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

Sophia de Mello Breyner Andresen – Pudesse Eu


Há tantos poemas que poderia escolher. Há tantos que dizem o que não sei dizer, tecendo em palavras as emoções que me guiam. Há tantos, mas tantos poemas de amor, de dor, de negrume ou alegria, de paixões balançadas, ou de versos esguios. Há tanta palavra bailada, em ritmos sincopados, ou desenhando nas métricas pensamentos voláteis. Há tanto poema. Tanto! Que quase não sei escolher. E então fecho os olhos. E suspiro um "pudesse eu..." E deixo aqui Sophia. Porque sim. Porque há demasiados poemas. Ou porque estes quatro versos resumem o meu olhar sobre o futuro agrilhoado ao presente.


O texto é um repost, mas é também o desafio que vos deixo enquanto vou de férias: quero saber dos vossos poemas! Todos temos "aquele" poema especial. Este é o meu e gostava saber dos vossos...

18 comentários:

deep disse...

É tarefa difícil esta de eleger um poema preferido... são tantos! Deixo, por isso, não "o preferido", mas "um dos preferidos":

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro

Mais uma vez, bom passeio!

Lyra disse...

(um dos. porque são muitos os que me tocam no coração.
Boas férias para ti :) )

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não sere para nada.

A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a natureza de ontem não é a Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar.
Alberto Caeiro

SoNosCredita disse...

hmm...
tenho vários.
e sei que terei mais, assim que ler mais...

assim que recordar algum, volto aqui!

sofia. disse...

Tantos!...
Mas um do tipo máxima é este:

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

Ricardo Reis

Senador disse...

Em resposta ao desafio proposto confesso que o "meu" poema especial é Quando eu sonhava e faz parte das Folhas Caídas de Ameida Garrett.

QUANDO EU SONHAVA

Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora que estou desperto,
Agora que a vejo fixar...
Para quê? ? Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava ? mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas a dor não na conhecia...

jp disse...

Senhor do caos
Tornar-se senhor do caos que se é,é uma alegoria!
Um propósito fixo quase destruidor.
Uma esperança mal interpretada
Um dissabor mal digerido.
É um empenhar-se numa metáfora
Resolvida porque forçada.

Mas não sendo assim
De que me vale?
j.p.

e este é o meu, que me assenta que nem uma luva ;-)

CAP disse...

"O"? "Um"?
Impossível!

Rosmaninho disse...

Este é só um dos muitos, e aquele que estava mais perto quando li o teu desafio.

Os Amantes sem Dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins por onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade

filipa disse...

Ainda vou a tempo?
Não querendo ignorar os grandes poetas que temos, o MEU poema é o de emily dickinson:

"Hope" is the thing with feathers
That perches in the soul
And sings the tune without the words
And never stops at all

And sweetest in the Gale is heard
And sore must be the storm
That could abash the little Bird
That kept so many warm

I've heard it in the chillest land
And on the strangest Sea
Yet, never, in Extremity,
It asked a crumb of Me.

boas férias!!!! :)

beijinhos

Hipatia disse...

Sabias que a Zu escolheu o nome do blogue dela à conta desse poema, Deep? Foi por isso que lhe chamou "Um Pouco Mais de Azul".

É lindo!

:))

Hipatia disse...

O post foi mesmo mal formulado, Lyra: como pedir apenas só um poema? Mas tu escolheste um que vale a pena!

Hipatia disse...

O mal dos bons poemas é que nos viciam: cada um que nos encanta, enche-nos apenas de vontade de mais :)))

Hipatia disse...

"Põe quanto és
No mínimo que fazes."

Excelente máxima, Sofia

Hipatia disse...

Xii, Senador! Há que tempos não me lembrava de Garrett. Culpa minha e apenas minha, como se prova com a leitura desses deliciosos versos :))

Hipatia disse...

Lindo, Jaquelina Pandemónio. E cheira-me que te assenta mesmo como uma luva.

:))

Hipatia disse...

Talvez seja mesmo impossível. Mas não podia ser "o" dos "os" ou "um" dos "uns", Cap?

Hipatia disse...

O que acho é que temos sempre, por entre muitos, um que está "mais perto" em qualquer situação, Rosmaninho :))

Hipatia disse...

Vens sempre a tempo. Filipa :))) E que linda essa primeira estrofe!