2008-11-24

Cegueira

Pois é, na sexta lá fui eu ver o filme "Ensaio sobre a Cegueira". Já tinha lido o livro do Saramago e não fiquei desapontada. Gostei imenso. Dou os parabéns ao realizador, Meirelles, por me ter presenteado com uma bela sessão de cinema. Em muitos pormenores as coisas são como as imaginei quando lia a história.
É um filme forte, crú, para fazer pensar, mas o livro também o era. Observei o desapontamento de algumas pessoas, cujos comentários deixavam transparecer várias coisas: ou não o estavam a compreender (é sobre tudo menos cegueira); alguns estavam à espera de outra coisa (não cheguei a perceber bem o quê); ou, ainda, que não leram a obra do Saramago (nitidamente). - Nos intervalos ouve-se de tudo...
Numa última nota, junto a minha voz à daqueles que elogiaram a representação de Julianne Moore, ela está mesmo fenomenal!

5 comentários:

jp disse...

sabes que, a cegueira é uma cena marada
ou se tem ou não
e cegos tomos somos um pouco, tal como de loucos, mas isto já sou eu a parvar
e sim, o filme é fantástico...
;)

Carlos Gil disse...

o post é sobre o filme, que não vi. li o livro. e mesmo que o 'Memorial' seja o que é tive um prazer intelectual inabitual na leitura do 'Ensaio sobre...'. é obra conseguida quando um Autor consegue que o leitor resvale na encarnação das/duma personagem e do ambiente onde as palavras nos transportam. este, pela originalidade do 'teletransporte' foi dos tais que não se devorou de fio a pavio com as folhas a correrem sequiosas do final mas que se pousava amiúde e perdia o olhar no vago, no vazio, reflectindo sobre... um mundo 'olhado' assim. todos os pequenos e grandes nadas que no quotidiano nos enchem, até esse olhar sem ver como seria num mundo assim.
vi que o 'elefante' já está à venda mas ainda não o trouxe para casa. até porque de momento tenho '31' em voo ou em pista aguardando vez. lá chegará a sua vez nem que seja daqui a três meses. gosto de Saramago. gosto de mil e um mas gosto muito de Saramago por além da fertilidade ficcionista, excelente, a sua escrita "ensina como desvirgular" com rigor. detesto comparações entre a e b, escritores. sou maior fã do ALA que de Saramago e tou-me nas tintas para as rivalidades pessoais, até para os feitios pessoais: o Autor e a Pessoa-atrás-dele não têm de ser coincidentes. ALA escreve como ninguém, caixa toráxica aberta e grampos d'aço até à última linha para se mirar bem o sangue e o pulsar. sim, admiro-o por isso. invejo-o - escrevo-o sem rubor. a minha ambição d'escrita é 'escrever sem rubor', aurora e crepúsculo e ignorar os aléns que s'entremeiam, as grilhetas que rombam o aparo e amarfanham a folha, vergonha que desmaiúscula sóis, luas, as palavras que não soam como estrelas pois fenecem nos hiatos dos pesadelos cirúrgicos. no "ensaio sobre..." li, vi, esse limbo preenchido e o medo do vazio entre 'a aurora e o crepúsculo' diluído noutra visão que-não-tradicionalmente-ALA.
acho que me 'alarguei'. mas gostei de escrever sobre isto, "desculpem qualquer coisinha" e haja oportunidade e verei o filme. não o considero fundamental e não correrei atrás dele: normalmente desiludem-me pois nunca vejo um filme baseado num livro sem antes o ler. uma excepção - e passou à dias na RTP lá pelas 1 da manhã, e pela quinquajésima vez fui um dos milhões de habitantes não recenseados da aldeia mais populosa do mundo: "as pontes". Clint e Merryl, eu-tu, eus-tus, Clint na realização do GlobalMilhões do sentimento simultâneamente vulgar e especial que é a solidão. o filme 'venceu' o livro, assim neste repente incontinente é o único exemplo que me advém.

sorry pelo uso e abuso. como tão bem caracterizou a 'Cat' isto de ser "okupa" das caixas de comentários alheias tem um gosto especial. que pessoalmente perdi (re-perdi? definita ou en passant?) no meu canto de pousios avinagrados em culturas e sub-culturas sem rentabilidade além do masoquista fastio de mudar regularmente os sacos de soro e drogas ao cadáver não oficializado pois aguarda sentença judicial para a máquina ser desligada. por isso vagueio, 'okupo', mato a sede em casas alheias: o meu quarto na enfermaria não tem quadro, uma janela, não me mexo e não incomo os catéteres e os tubos, tira e põe, de vegetais nem uma couve galega ou uma alface: só a mão mexe e é para rasgar folhas atrás de folhas, uma floresta de nadas desvastada por nada.
mas 'aqui-alis' esses nadas evolam-se e madrugo a tal aurora e delicio-me no dito crepúsculo, sei lá porquê. na próxima consulta a ver se não me esqueço de falar nisto :))

Fabulosa disse...

jp, podes continuar a parvar, ou a parvejar, vejo que há luz por esses lados e que a cegueira branca não te tocou! ;)

Carlos Gil, o "Memorial" foi o primeiro livro que li, foi-me oferecido no Natal no mesmo ano em que o Saramago foi Nobel. Adorei. Mas o livro do JS de que eu mais gostei, até agora, (ainda não li muitos dele), foi o "Evangelho Segundo Jesus Cristo". É mesmo um dos livros que mais prazer me deu ler até hoje. Talvez porque eu sou ateia (embora ultimamente me assuma mais como agnóstica)! ;)

Nunca li nada do António Lobo Antunes (presumo que seja a ele que te referes como ALA). Tenho um, comprado há uns tempos, em stand by. Comecei-o na altura, mas não me agarrou. Não gostei muito. Está à espera que lhe dedique mais atenção um destes dias.

"As Pontes de Madison County". Li livro e vi filme. Gostei de ambos. Talvez mais do livro, muito embora a representação dos protagonistas seja excelente.

Gostei muito do teu comentário e da tua partilha. "Okupa" quando quiseres. Parece-me que esse teu estado vegetativo não é assim tão vegetativo, e p'ra trocar ideias... cá 'tamos! =)

Carlos Gil disse...

ainda sobre o ALA: as suas crónicas são uma excelente introdução para 'ler' os seus livros. ainda agora vaguendo dei com esta - uma entre mil (e que vem a calhar que nem ginjas), pois não consigo encontrar-lhe uma má (há-as coligidas em livro(s).... sugestão):

Opinião: Crónica ao espelho


Estou a escrever com a esferográfica do hotel, na única mesa do quarto, diante do espelho: levanto os olhos e o que pensam ser a minha cara ali. Como na porta existe um sinal de proibição de fumar acendo um cigarro. Conheço centenas de quartos de hotel em não sei quantos países, e no entanto a sensação de ficar sempre no mesmo. Provavelmente é o mesmo, que vai mudando de cidade a perseguir-me. Em todos escrevi, aproveitando uma horinha à tarde, dez minutos à noite a fim de não perder a mão. No televisor ligado, sem som
(tiro sempre o som àquilo)
um concurso idiota que ajuda a compreender que não me enganei: em todos os televisores de todos os hotéis da minha vida concursos idiotas, um apresentador ridículo, uma assistente que merecia melhor sorte, por exemplo estar aqui comigo. E daí não: ao fim de meia hora já não conseguia aturá-la, apesar do penteado, apesar do vestido, apesar das pernas. Mulheres que me fazem lembrar o aviso nos rótulos dos xaropes: agite antes de usar. Voltei ao hotel agora, a seguir aos autógrafos, é muito tarde, estou cansado. As pessoas que me lêem comovem-me: fiz um livro diferente para cada uma delas, com palavras diferentes, do mesmo jeito que um alfaiate trabalha por medida, porque a vida de cada um é única, nunca existiu ninguém antes. As experiências podem ser parecidas, a maneira de vivê-las diversa: somos mundos sem fim. Guardo olhos, sorrisos, vozes, dedos que apertaram os meus, uma comunhão indizível. São eu e eu sou elas, falando para elas, por elas. Tanto sofrimento também, algumas alegrias, um imenso, impartilhável silêncio que deseja, com toda a força da alma, ser escutado. Durante os autógrafos oiço muito mais do que digo, escuto expressões, olhares, gestos, o som de um sorriso. Isto no Porto, sexta e sábado, com gaivotas pequeninas
(nunca tinha visto gaivotas pequeninas)
nos penedos da foz, dúzias de gaivotas pequeninas nos penedos da Foz, a aprenderem a ser, na manhã de um azul tão português e imenso mar à nossa frente, sob toneladas de sol, a pura alegria de estar vivo. Ganas de ir à Boa Nova na esperança de encontrar António Nobre, que me retratou inteiro nos seus versos. E as gaivotas pequeninas para aqui e para ali, confundidas com o cinzento das rochas. Estou a meter estas palavras no papel, sem crítica, não pretendo ter graça, não pretendo ser profundo, não pretendo impressionar ninguém: recuperei a infância sou um miúdo espantado. E, tal como quando era miúdo, não morrerei nunca, qualquer fada obscura parece condenar-me à felicidade, um dia dura que tempos, peguem-me ao colo. Uma ocasião, com cinco ou seis anos, Mozart deu um concerto para a corte francesa. Mal começaram os aplausos foi a correr para os joelhos da rainha Maria Antonieta e pediu
– Goste de mim
Será a sede de amor uma doença grave? Ponho os nomes das pessoas nos livros, ponho o meu, palavras entre os dois nomes e ficamos unidos. É bom conhecer quem me lê, afinal existem leitores, os livros não saem sozinhos das livrarias, sinto-me grato. As gaivotas pequeninas sempre em bando, junto umas das outras, com medo. O Zé Francisco ao meu lado
– Já tinha visto gaivotas pequeninas?
e nunca tinha visto gaivotas pequeninas, há imensas coisas que nunca vi. Também ando a aprender a ser. Escrevi sobre esta praia em junho, perdão, em maio, perdão, em maio ou junho não recordo ao certo. Se calhar esta crónica vai ficar uma chumbada, são desenhos sem interesse na margem do papel. Que importa? Sou feito destas minúsculas coisas igualmente, destas patetices que me desfiguram o perfil, desta pobreza de emoções:
– Já tinha visto gaivotas pequeninas?
e a cara diante do espelho opaca. Deito fora estas folhecas? Mando-as para a revista assim? Abro a janela toda e um bêbado lá em baixo na avenida, em lentidões orgulhosas, equilibrando o corpo que lhe foge numa atenção preocupada. De vez em quando pára a insultar sombras, ameaçando-as com a manga solene, janelas cegas, quase nenhuma luz nos prédios fronteiros: a minha cara continuará no espelho à espera que eu volte? Espreito e lá está ela de facto
– Quem és tu?
não, antes
– Quem és tu por baixo dessa cara?que parece avaliar-te, medir-te. O bêbado lá ao fundo, longe, suponho que zangado ainda. Apetecia-me passear na Ribeira agora, apetecia-me uma trouxa de ovos, apetecia-me o teu corpo, apetecia-me que o vento me despenteasse, apetecia-me benzer-me ao passar pelo oratório da minha avó. Apetecia-me conversar com Santo Agostinho acerca do Tempo, apetecia-me reler Ovídio. Mas vou levantar-me daqui porque acabei, estender-me na cama, esvaziar-me, não pensar em nada. Ou seja: pensar nas gaivotas pequeninas, pensar no mar.
Qual das ondas sou eu? Desfaço-me sem ruído, desapareço. Ficam os meus livros na areia. Talvez alguém descubra, daqui a imensos séculos, os meus livros na areia. Não são livros, aliás: são apenas as marcas dos passos de um homem.

António Lobo Antunes

Publicada por Violeta em 17:56

daqui: http://violeta2008-violeta.blogspot.com/2008/11/o-espelho-de-cada-um-de-ns.html

Fabulosa disse...

Carlos Gil, obrigada pela sugestão. por acaso... gostei! =)