2026-02-17

Os caretos não pedem desculpa

Há qualquer coisa de profundamente honesto num homem que decide vestir-se de demónio colorido e sair à rua a assustar raparigas. Não estou a ser irónica. Estou a falar dos Caretos de Podence, essa manifestação de sanidade colectiva disfarçada de loucura pagã.

Porque, convenhamos, vivemos o ano inteiro a fingir. A sorrir quando não apetece, a engolir opiniões, a domesticar impulsos. Somos adultos civilizados, portanto sabemos estar quietos. E então chega o Carnaval em Podence e de repente há licença para ser barulhento, invasivo, selvagem. Para saltar como se a gravidade fosse uma sugestão, não uma lei.

Os Caretos vestem franjas de lã que parecem saídas de um pesadelo technicolor — vermelho, amarelo, verde, como se alguém tivesse explodido uma caixa de lápis de cera sobre corpos humanos. Põem máscaras de latão com sorrisos satânicos, amarram chocalhos à cintura e transformam-se. Deixam de ser o Zé da mercearia ou o António da oficina. Tornam-se entidades — criaturas que existem naquele limbo entre o homem e o mito.
E correm. Meu Deus, como correm. Perseguem as raparigas pelas ruas de Podence numa dança que é simultaneamente ameaça e cortejo, medo e riso. É tudo muito ambíguo, muito pré-cristão, muito "não tentes explicar isto com PowerPoint".

O que me fascina é que esta tradição sobreviveu. Resistiu à Igreja (que deve ter achado aquilo tudo muito suspeito), resistiu à modernidade (que quer tudo asséptico e instagramável), resistiu até à UNESCO (que em 2019 a declarou Património Imaterial da Humanidade, como quem diz: "está bem, podem continuar com a vossa loucura organizada").

Porque no fundo, os Caretos são a negociação que fizemos com o caos. Durante 363 dias do ano, comportamo-nos. Pagamos impostos, respondemos a emails, fingimos que a vida faz sentido. Mas em Podence, durante uns dias abençoados de Carnaval, há homens vestidos de impossível a saltar pelas ruas, e ninguém lhes pede explicações.

São a prova de que, por muito civilizados que sejamos, há qualquer coisa em nós que recusa domesticação total. Que ainda sabe fazer barulho. Que ainda sabe saltar.

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