2026-02-07

Véspera de sufrágio

Pergunto-me o que pode dizer hoje alguém que viveu o Estado Novo, a Guerra do Ultramar e o nome nas listas da PIDE sobre estas vésperas do dia em que André Ventura e a extrema direita se arremetem à Presidência da República.

E sei que essa é uma pergunta que toca na memória viva e nas feridas ainda abertas de Portugal. Alguém que carregou o peso da perseguição política e o trauma da guerra carrega um "termómetro" histórico muito sensível. Seria de esperar que o sentimento não fosse apenas de oposição política, mas de uma estranheza visceral e um alerta ético. 

Mas então de onde vêm tantos votos, tanto fanatismo?

1. O Peso da Memória vs. O Esquecimento

​Para quem teve o nome nas listas da PIDE, a liberdade não é um conceito abstrato; foi algo conquistado com medo e silêncio. Essa pessoa diria que "a democracia não é um estado permanente, é uma construção diária". Ver a extrema-direita à porta do poder pareceria, para ela, um sinal de que o país se esqueceu do que é viver sem poder falar à mesa, sem poder ler certos livros e sem saber se o vizinho é um informador.

​2. A Guerra e o Nacionalismo

​Tendo vivido o Ultramar, essa pessoa conhece o custo real do nacionalismo exacerbado e do isolacionismo ("Orgulhosamente Sós"). Ela lembraria que o discurso de "nós contra eles" e a exaltação de um passado glorioso muitas vezes terminam em jovens enviados para guerras evitáveis e famílias destruídas. Diria: "Eu vi onde esse caminho termina, e não é na grandeza, é no luto."

​3. A Fragilidade das Instituições

​Quem viveu o Estado Novo sabe que o autoritarismo nem sempre entra pela porta com um golpe de Estado; às vezes, ele entra pelo voto, prometendo "limpar" o sistema. Essa pessoa alertaria que atacar as instituições por dentro é o primeiro passo para o abismo. O sentimento seria de uma urgência pedagógica: tentar explicar aos mais novos que a "ordem" prometida tem um preço alto demais: a tua liberdade individual.

​4. A Desilusão com o Presente

​Sendo alguém de esquerda, haveria também uma autocrítica amarga. Ela questionaria como a democracia falhou em resolver problemas básicos (habitação, saúde, corrupção) ao ponto de empurrar o povo para soluções extremistas. Diria, talvez com tristeza: "Lutámos para dar voz a todos, e agora essa voz está a ser usada para pedir o silêncio de muitos."

​Em suma, essa pessoa diria que o voto não é apenas uma escolha de gestão, mas um testamento de valores. Ela olharia para o dia de amanhã não como uma eleição comum, mas como um referendo sobre a própria identidade de Portugal pós-1974.

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