Acordo e olho pela janela. Chuva. Outra vez. Como se o céu tivesse decidido que somos uma esponja gigante e Portugal inteiro precisasse de um banho de imersão prolongado.
Já nem sei o que é ter os pés secos. As minhas meias vivem num estado permanente de humidade melancólica, como se estivessem a fazer greve silenciosa contra esta meteorologia de fim do mundo. Os dedos começam a parecer passas recém-saídas de um pacote de cereais biológicos — enrugados, tristes, sem futuro.
E a pele? A pele está a adoptar uma textura de papel de cenário molhado. Tenho a certeza que, se continuar assim mais uma semana, acordo transformada numa daquelas maçãs que ficam esquecidas no fundo do cesto e ninguém tem coragem de deitar fora, mas também ninguém quer comer.
Começo a desenvolver empatia pelas ameixas secas. Sinto-me solidária com as uvas-passas. Olho para o espelho e vejo alguém que parece ter acabado de sair de um episódio prolongado de "Aventura à Flor da Pele em Clima Atlântico".
A meteorologia diz que amanhã também chove.
Claro que sim. Porque havíamos de ter sol, não é? Isso seria pedir demasiado ao universo.
Vou ali encarquilhar mais um bocadinho.
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