2026-02-14

Kintsugi

Dizem que o silêncio é a ausência de som, mas quem já sentiu o peito abrir-se ao meio sabe que o silêncio, na verdade, é ensurdecedor. Não há nada mais barulhento do que o que resta quando tudo o resto se vai. Um batimento cardíaco de um coração partido.

A cada batida, pergunto ao vazio: "Ainda aqui?". E o eco, esse passageiro clandestino da minha caixa torácica, responde com a vibração das paredes rachadas. Sou a prova viva de que, mesmo quando o centro do mundo colapsa, a engrenagem não se rende. Sou o som da sobrevivência que ninguém pediu, mas que todos somos obrigados a ouvir.

Houve um tempo em que o som aqui dentro parecia o de vidro a estilhaçar-se no chão de mármore. Pensei que o ritmo se perderia no meio dos destroços, que a música tinha chegado ao fim. Mas a vida tem uma obsessão estranha pela continuidade.

​Hoje, a cadência mudou. Sou o batimento cardíaco de um coração partido, sim, mas a ênfase já não está no "partido". Está no facto de ser eu a bússola que sobreviveu ao naufrágio.

​Aprendi que um coração remendado não é um coração fraco; é um coração reforçado. As minhas costuras não são falhas, são ligas de aço tecidas com o fio do tempo. Há uma beleza bruta nestas cicatrizes que agora protegem o que resta. Elas são o meu novo mapa e a minha maior certeza: posso até ver novas fendas amanhã, mas não voltarei a rachar pelas mesmas costuras.

​Onde antes havia uma ferida aberta, agora existe calo. Cada batida é um lembrete de que a estrutura foi testada e, embora alterada, permanece de pé. Sou o som do que insiste. Sou a prova de que a luz entra melhor pelas fendas, mas que o alicerce, esse, aprendeu finalmente a segurar o teto.

​Sigo. Coração remendado, inteiro e mais forte do que a peça original.

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