Chegou o Domingo Gordo, essa gloriosa data litúrgica em que o português médio decide compensar quarenta dias de abstinência futura comendo num único dia o equivalente calórico de uma família vitoriana inteira. É o derradeiro hurrah antes da Quaresma, quando fingimos que vamos jejuar e rezar, sabendo perfeitamente que no dia seguinte estaremos a negociar com Deus: "Mas chocolate não conta, pois não?"
As pastelarias enchem-se de devotos em peregrinação às últimas fornadas de sonhos, coscorões e filhoses - porque nada diz "espiritualidade" como fritar massa em banha de porco. Há filas à porta, discussões acaloradas sobre quem chegou primeiro, tudo muito cristão e cheio de amor ao próximo.
As avós entram em modo produção industrial, transformando cozinhas em refinarias de açúcar e gordura. "Come mais um, vai!", insistem, como se o jejum de amanhã fosse literal inanição e não apenas evitar chouriço às terças e sextas.
E assim nos despedimos da gula organizada até à Páscoa, quando tudo recomeça com o folar. Bom proveito e boa digestão. Vão precisar.
Cá por casa, feijoada à transmontana. Ah pois! Daqui a 40 dias revemos o colesterol.
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