Há amores que precisam de fazer arrumação antes de começar.
Este começou em França e foi deixando pelo caminho o que não cabia na bagagem. Primeiro o rapaz de dezasseis anos — idade suficiente para sobreviver, insuficiente para perceber que estava a ser descartado. Depois a viagem até Portugal, que não foi uma fuga nem uma aventura romântica, por mais que eles a tenham narrado assim a si próprios. Foi uma logística. Uma resolução de problema.
O problema chamava-se três anos. O problema chamava-se cinco anos. O problema tinha olhos.
Alcácer do Sal tem pinheiros e silêncio. Têm isso em comum com muitos lugares onde se enterram coisas. Deixaram as crianças vendadas — pormenor que merece ser lido devagar, porque a venda não serve a criança, serve quem abandona. Não quero que me vejam partir. Não quero carregar essa imagem. O conforto, até ao fim, era deles.
O pai biológico existia. Esta informação é importante. Não havia ausência de alternativa, havia recusa de alternativa. Entregar as crianças ao pai teria deixado rasto, implicado explicação, exigido um mínimo de confronto com o que estavam a fazer. A mata não pede nada. A mata não tem número de telefone.
Quando foram interceptados, tinham um plano: fingir deficiência mental. Combinaram-no friamente, entre si, com a segurança de quem não considera a hipótese de falhar — e com o desprezo de quem não considera a hipótese de em Portugal haver alguém que entende francês. O mundo, na sua cosmologia, era pequeno e estava do lado deles.
Não estava.
Há uma palavra para o que fizeram às crianças. Há outra para o que fizeram ao rapaz de dezasseis anos. Há uma terceira para o plano combinado em voz baixa, para a venda nos olhos, para a mata escolhida, para o pai ignorado.
Nenhuma dessas palavras é amor. Nenhuma é sequer o seu contrário.
É outra coisa. É a convicção, tranquila e organizada, de que os filhos são peso — e de que o peso se larga quando se quer começar a correr.
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