2007-01-10

Memória


aqui

Não sinto nunca que sei muito seja do que for. Sei um bocadinho mais da área em que me formei e, no entanto, evito conscientemente falar dela. É como se não fizesse qualquer sentido estar para aqui a debitar matéria, um arrazoado sem interesse para a maioria e sem espaço para ficar limitado ao corpo de texto de um post. Sei muito pouco de quase tudo, mas guardo na memória um amontoado de conhecimentos sem interesse. Talvez eu seja o estilo de pessoa para responder às perguntas do Malato: debito informação guardada, sem a questionar, indo buscá-la a qualquer espaço da memória que faria melhor se ficasse livre para informações realmente pertinentes. Gostaria, por exemplo, de guardar mais facilmente nomes, coisa que não acontece. Chego a irritar-me profundamente por recordar toda uma série de factos circunstanciais, que vou debitando para o interlocutor, num esforço para que, do outro lado, venha o nome que me foge. Sei pormenores que não interessam, mas não lembro o essencial. Tenho facilidade para guardar pormenores, como palavras que já quase ninguém usa e que, na verdade, apenas me fogem para as teclas quando escrevo. Esqueço caras também. É como se não houvesse espaço para elas. Aliás, esqueço pessoas por completo, se não fizeram de alguma forma marca na minha vida. Não sou nada boa para aquelas conversas do tipo "o irmão do primo da Maria, casado com a Engrácia, que era aquela da sala ao lado quando estávamos no 9º ano e tinha uma vespa azul às risquinhas". Perdia-me logo no primo. Nunca chegaria à Engrácia e à sua vespa. Jamais lembraria o irmão. Coisas de memória selectiva, mas não selectiva o suficiente. Preferia uma memória mais funcional, menos cheia de informações sem interesse. Dava jeito lembrar caras. Dava jeito lembrar nomes. Dava muito jeito saber como excluir do meu disco rígido tanta informação sem valor real para o que faço todos os dias. Dava jeito saber como armazenar tudo o que se prova fazer falta, especialmente na interlocução social e que, há muito, mandei para os arquivos mortos da memória. Tenho uma memória de caca a precisar de um upgrade

9 comentários:

Alien disse...

Não tem nada a ver, mas acho muito pouco provável que tenhas tido uma Engrácia como colega. Muito menos a andar de vespa. E nunca chegaria ao 9º ano.
Eu tive uma tia Engrácia. Mas era tia avó de uma das minhas tias avós. Morreu de velha muito antes de eu ver a luz do sol.
Por isso não me preocuparia nada com a selecção feita pela tua memória em conversas sociais.De um modo ou de outro, com memória ou sem ela, toda a trama do diálogo parecia altamente inverosímil.

Anónimo disse...

Não sabes nem queres saber em fazer conversa da treta.
Bem saudável. Boa memória.

Hipatia disse...

Por acaso, conheço uma Engrácia e está bem longe (tanto quanto é possível saber) de ir fazer tijolo nos tempos mais próximos. É a treta da falta de memória, lindo: nunca me lembraria de um nome - por mais estranho ou em desuso que pareça - se não o tivesse próximo de alguma forma. Mas é certo que nunca a vi de vespa...

Quanto ao diálogo, obviamente que falas de um ponto de vista masculino. Umas idas ao wc feminino e ficava logo demonstrada a probabilidade do mesmo ;-)

Hipatia disse...

Mas as conversas da treta existem e têm a sua função, não é, Marta? E quem é que gosta de sentir-se disfuncional? :(

maria_arvore disse...

Hipatia,
se fosse eu queixava-me aos fabricantes porque isso é defeito de fabrico. ;))

Mas se conseguires saber como se faz o upgrade, avisa-me logo que eu precisava de apagar o ror de nomes e caras que me enchem o disco rígido e que nunca mais vi na vida. ;)

Anónimo disse...

Cá para mim, Hipatia, conversa da treta, não obrigado.
É verdade que se chega a estar com pessoas e pensar o que se estará ali a fazer. Ossos do ofíciop das opções tomadas.

Hipatia disse...

Maria Árvore, trocas o meu banco de dados pelo teu banco de imagens? Assim como assim, eu só consigo lembrar o que consigo visualizar :)

Hipatia disse...

Pois, Marta. Mas é que o meu ofício está carregadinho de tretas ;-)

Anónimo disse...

Mais Vozes

olha, eu sou a fábula, aquela tipa que se costuma dar com o conto, que mora na rua das histórias, aquela que tem uma mente fabulosa, às vezes muito louca, lembras-te?

agora a sério creio que todas as memórias são muito selectivas...
fábula | Homepage | 01.10.07 - 7:22 pm | #

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Adorei essa tua descrição Sabes o que acho? Que devias pegar nela - aqui tão escondida nestas Outras Vozes - levá-la para o Fabulosamente Louca e transformá-la num post
Hipatia | Homepage | 01.10.07 - 7:55 pm | #

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imaginação e ideias não me faltam, falta-me... sentido de concretização!
obrigada pela sugestão, estou tentada a aceitar (por aqui se vê a fraqueza do meu espírito: não resisto à tentação)!
fábula | Homepage | 01.11.07 - 10:19 am | #

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"Apressam-se os dedos no teclado, já não escrevo coisa com coisa, nunca escrevi. Um súbito arrepio lembra-me que isto é só um blog, não vale nada, de nada serve, mas eu... acho-lhe graça e divirto-me, por isso lá vou orquestrando umas linhas...
Como se contasse loucas histórias, reinvento-me contando menos de mim!"

E isto é lá falta de alguma coisa? Ora!


Hipatia | Homepage | 01.11.07 - 8:01 pm | #