2009-12-19

Do género


aqui

Há tantas vezes em que parece que as mulheres não passam do degrau da equivalência. E há tantas outras em que parece que, para atingirem o topo, tiveram que adoptar comportamentos estereotipados do sexo oposto. E há ainda tantos anúncios da menina da bilha… E até sabemos que podemos e devemos dizer tudo, fazer tudo, sem cobranças, para além das tantas que já fazemos diariamente a nós mesmas. De saltos altos, na maioria dos dias, para que ninguém esqueça que há nisto tudo uma certa dose de masoquismo. Com horário completo para além da hora e sem nunca um nove às cinco, que ainda há a casa, o supermercado, o jantar e os filhos. Uma geração de super-mulheres de quem se espera que façam tudo e tudo bem. Mas o pior, o pior mesmo, é quando – depois de longas e estudadas análises racionais a todos os conceitos, todos os deveres e todos os direitos – acabamos a sentir que não nos livramos do preconceito. Trazemos ainda o gajo tatuado em nós, é marca de fogo, letra escarlate. Em nome dele, julgamo-nos e ainda somos capazes de, no fim, julgar a outra. Talvez seja tudo uma questão de falta de hábito no jogo em equipa, dessa inconcebível capacidade do bicho macho para se proteger e ressalvar a gregaridade do género. Nós vamos logo de faca na mão e língua afiada e a vizinha tem sempre qualquer coisinha de que podemos dizer mal com inusitado fulgor. Depois, como somos nós que acabamos a parir a todos, géneros à parte, passamos no leite o que somos e o que ainda não conseguimos chegar a ser. E é por isso que, mesmo esperando pelo dia milagroso em que o Mundo seria, finalmente, governado pelo desgoverno feminino, feito de palavras e conversas, em lugar de murros e bombas, temo-o com igual desgarre: que faremos umas às outras nesse dia, se não gostarmos dos sapatos, ou invejarmos o vestido? E que reservaremos para as putas, aquelas que, sendo-o ou não, caíram para o lado debaixo da forma viciosa como ainda olhamos para o nosso género?

4 comentários:

Paulo Abreu e Lima disse...

Enfim... e há tanto super-homem em lugar de chefia que tenta consensos, consola desabnegadamente a colega, acorda às 6:00, leva os putos às sete, trabalha como um mouro durante todo o dia com o telemóvel no bolso com receio de alguma chamada da escola, vai buscá-los às 19:30, dá-lhes banho às oito, enquanto está a comida ao lume e, ainda... tem de satisfazer a mulher insaciada à meia-noite!
Há, há! Oh, pra mim... :P

I. disse...

Eu não sou, não quero ser e tenho raiva de quem acha que devia ser super-mulher. ProntoS.

E essa atitude de gajas contra gajas dá-me náuseas. Fogo, se não formos umas para as outras, cuméquié? Mas não há dúvida que entre nós, mulheres, é frequente surgir a farpazinha, convenientemente espetada nas diferenças das outras que não queremos entender.
Eu ando cheia de farpas. Não sou mãe, tenho tempo para tudo (era bom era), não tenho que andar a sempre a correr(hã?), não tenho coisas importantes que me preocupem ('sculpa?).
Mas esquecem-se que sou das primeiras a chegar, das últimas a sair, não cobro nada a ninguém e ainda ofereço o ombro e o ouvido a quem precisar.
Mas há dias que tenho vontade de as afogar todas num saco de serapilheira, que também não sou santa :D

Hipatia disse...

Ena tantos assim! Fica lindo na fotografia e na lenda com que alguns debitam paleio enquanto pagam copos à espera de verem o que sobra no final da noite :D

(há excepções, obviamente; mas há sempre excepções, o que só serve para confirmar a regra, como se costuma dizer)

Hipatia disse...

Eu também tenho vontade de as afogar a todas, especialmente as que nos tentam meter pelos olhos dentro o fatinho de mulher-maravilha que, há uns tempos atrás, uma senhora rodopiante e de chicote dourado, apregoava numa série de TV. Obviamente de corpete desusadamente sexy, botas com tacão e mamalhufa o tanto à mostra quanto era possível nas séries de TV daqueles tempos. Mas nada impede que, tirando isso, a partilha seja coisa ainda a modos do "obedecer" até à morte e levar de arrasto um qualquer que até para dar com o caixote do lixo tem dificuldades. E depois ainda aparecem todos os anos uns estudos destes aqui, como se não fosse mais do que óbvio o que continua a acontecer.

(eu sei: às vezes devia explicar melhor os posts que escrevo, que nem sempre se percebe o que os motivou)