2009-12-18

Interne-se!


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Um esquizofrénico que resolve deixar de tomar a medicação e, alegando que uma voz dentro da cabeça lhe diz para o fazer, resolve invadir a casa do vizinho, que é cego, atacando-o furiosamente ao ponto de o mandar para o hospital. A polícia toma conta da ocorrência e só. A situação repete-se e, mais uma vez, há uma participação à polícia e ninguém faz mais nada. Que será preciso? Que a voz na cabeça lhe diga para usar um cutelo e, depois do crime consumado, prendem o gajo? E se os amigos e familiares do cego - que vive neste momento aterrorizado dentro de casa, aquele que, para todos nós, deveria ser um sítio de paz e refúgio - resolverem partir os dois bracinhos ao maluco? Ou as duas perninhas? Pois! Já sabemos para quem sobrava e, nesse caso, como a polícia e a justiça em geral andariam da perna. Acho que o melhor é usar a velha técnica portuguesa e falar ao Sr. Cunha. E nem me venham com a treta da corrupção ou dos amiguismos, que há coisas em que, agora como sempre, só quem tem amigos não morre à míngua.

10 comentários:

I. disse...

Aheem (vou considerar o tempo em que escrevo este comentário como de trabalho, porque é instróire o pobo)

I o que deveria ter acontecido, tal como manda a lei:
1- a bófia detinha o tontinho e constatava que era tontinho;
2- a bófia levava o tontinho ao hospital mais próximo e entregava-o à psiquiatria;
3- a bófia elaborava o expediente de condução de detido para internamento compulsivo de urgência, e enviava-o via fax para o tribunal de comarca;
4- o juiz de instrução (ou de turno, caso fosse sábado ou feriado) validava a detenção, e iniciava-se o processo de internamento compulsivo (a fim de se ter uma decisão definitiva);
5- os senhores doutores faziam o favor de observar e medicar o tontinho, e só o "deslargar" quando o não considerassem perigoso.

II então, o que poderá ter corrido mal? tanta, tanta coisa... partamos do pressuposto que foi tudo feito até ao ponto 5. O que acontece muitas vezes é que não há condições para internamento psiquiátrico no hospital, ou os médicos não estão para se chatear, que um processo de internamento compulsivo dá água pela barba. Os médicos medicam o indivíduo com anti psicóticos, o indivíduo fica a babar-se, os médicos declaram que medicado o indivíduo já não é perigo e dão-lhe alta. E perguntas tu: com uma ordem validada por um juiz, pode o médico dar alta? Pode. Tcharam. (não sei se a lei foi alterada, mas até há 5 anos era assim)

III- Pode ter corrido mal desde o início: a bófia não deteve, ou não conduziu ao hospital, ou não elaborou o devido expediente para internamento de urgência. na zona de Lisboa a bófia conhece bem estes procedimentos, mas não ponho as mãos no fogo pela província.

De qualquer forma, é tudo muuuuuito esquisito, e acontece mais do que seria possível imaginar - principalmente a situação referida em II. Há esquizóides cuja vida é: a) armar barulho b) vem bófia c)deslarga o esquizo no Miguel Bombarda ou Júlio, d) dose cavalar e alta.

E pronto, ao menos ficas a saber.
Já agora: parece que querem (ou já o fizeram, não sei)desactivar o Miguel Bombarda. Jeitoso.

Hipatia disse...

Já agora e sem querer abusar: um gajo pode ir sobre a bófia por ter dado mau andamento ao processo, de acordo com a lei (ie, se aconteceu o ponto III)? É que às vezes só mesmo de livro de reclamações ou queixa ainda mais séria e, no caso concreto, parece-me que ninguém deitou a mão ao tontinho para o ir pôr a babar-se no hospital, mesmo que ele ainda estivesse ali no prédio.

I. disse...

Em teoria, sim. Pode-se participar ao Comando Geral, por exemplo, ou mesmo ao MAI (não faço ideia como).Eu cá sou toda a favor da queixinha, que se não se faz barulho também nada muda (e contra mim falo, na boa).

Neste caso, e estou-me a esticar um bocadinho, até acho que podiam deitar a mão ao fulano ainda que não o apanhassem em flagrante a bater ao outro. Se anda um louco furioso à solta, pode-se agarrar e conduzir ao hospital. O requisito é a perigosidade.Mas já não mexo nesta lei vai para uns seis anos, posso estar a falhar.

Pá, mas estamos no país em que se deixa andar. Pura e simplesmente.
(já uma vez me passou pelas mãos uma situação em que o indivíduo devia estar internado havia séculos, e por incúria de uma certa pessoa andava alegremente a passear-se na rua, a fritar o juízo a toda a gente, e isto quando não batia, mesmo. inclusivé à família, cruzes. não pode ser.)

I. disse...

Já agora: se alguém quiser, e o doido for identificável, é dirigir uma exposição ao delegado de saúde, que também é uma das autoridades que pode dar início ao processo de internamento compulsivo, para além da polícia. Ou então ao Ministério Público da comarca.

Paulo Abreu e Lima disse...

Depois de ler as respostas fiquei a saber demasiado... Mas uma já sabia. Existem 3 categorias profissionais que não se papam: médicos, juízes e assistentes sociais.

Quanto à bófia, tadinha, faz o que pode.

Hipatia disse...

O assunto está a ser tratado da forma mais "legal" possível, mas também é certo que há uma tentação imensa de fazer justiça pelas próprias mãos. E falar ao Sr. Cunha. Um que mande nos mais pequeninos e que é sempre amigo do amigo do amigo, para ver se para a próxima os mais pequeninos não se esquecem de fazer o que devem. E isso é quase de certeza o que vai acontecer: vai sobrar para quem não fez o que devia ter feito. Talvez para a próxima não se esqueçam que há sempre alguém que não se conforma. Até lá, é só preciso evitar que alguém mais irritado resolva partir as perninhas ao maluquinho.

Hipatia disse...

Há de tudo em todas profissões, Paulo. Já devias saber. E nesse tudo há sempre uns melhores do que os outros, entre tiranetes e demitidos, passando por gente que se preocupa e faz.

Paulo Abreu e Lima disse...

Não me fiz entender: estas três categorias profissionais andam demasidamente, entre elas, às turras. Não se "papam" entre elas. Foi isso.

Hipatia disse...

Não tinha entendido mesmo :)

I. disse...

Ihhhh, ó Paulo, olha que não, olha que não. Isso é mais mito que realidade. Em 95% dos casos em que esses profissionais têm que trabalhar juntos (e mete também ao barulho advogados e MP, que também há o mito que entram nesse caldeirão de ódios) tudo corre lindamente. Só que os tais 5% (ou menos) é que dão notícia e histórias giras, né?

Se as pessoas fizerem o seu trabalho e não se meterem a fazer o trabalho dos outros, tuuudo corre bem. Ou seja, o juiz decide, o médico diagnostica ou relata as patologias ou falta delas, o assistente social relata a realidade e propõe medidas (viáveis, já agora). O problema surge quando o médico e o ass. social querem mandar bitaites quanto ao que deve ser decidido, ou quando o juiz decide planar sobre os relatórios médico-legais ou sociais e inventar o que lá não está ou, pior, arranjar uma terceira via (esquecendo que, na falta de outros elementos de prova, i.e.,m outros relatos ou diagnósticos, está vinculado às conclusões ciêntíficas ou factuais vertidas naqueles. se não o convencem, então é mandar fazer nova perícia ou relatório, adiante).
Percebes? E até sei de onde te vem essa percepção, que foi bem patente na cobertura mediática dada a casos de menores como Esmeraldogate e Alexandrogate. Não vou tecer considerações sobre quem falhou ou deixou de falhar, até porque não sei, mas olha que não nos devemos fiar nos jornais, pá.

E quanto à polícia, nem sempre são santos, hein. Quando falava na província queria-me referir a esse grande interior esquecido. No litoral temos uma polícia mais ágil e com formação. No interior, ainda temos muitos velhos polícias com vícios e atavismos que entorpecem. Não me admirava nada que fosse o caso, aqui. Tipo o maluquinho (ou prevaricador) é filho da Dona Coisinha, não vamos arranjar chatices à Dona Coisinha. Ou então nem sabem o que fazer. No interior isto acontece mais do que devia, no litoral vai acontecenbdo menos. Já ouvi histórias de eriçar cabelos, caneco.

Mas é possível, note-se, acontecer com qq desses profissionais e em qualquer área do país - maus há por todo o lado (uma história de arrepiar que conheço, que podia ter acabado muito mal, aconteceu num centro urbano, aliás). Aí, é agir e berrar, temos pena. Porque da próxima, o tontinho pode ter uma faca de cozinha à mão, e então é uma desgraça. Que podia ser evitada tão facilmente. Isto enerva-me, acredita. O tuga way of life, de deixar andar e depois... ai, ai.

Espero ter esclarecido, e sempre à disposição e tal ;)