2026-07-21

O buço como bandeira


A moda é cíclica, já sabemos. Desta vez resolveu ressuscitar o bigode e elevá-lo a bandeira estética. Só que uma coisa é um bigode; outra é um buço com excesso de autoestima.

Eu, quando penso num bigode digno desse nome, penso no do Artur Jorge. Entrava na sala da conferência de imprensa uns segundos antes dele, anunciava a autoridade do dono e só depois aparecia o resto da cara. Aquilo era um bigode. O resto é penugem com departamento de marketing.

De repente, multiplicaram-se pelos rostos masculinos buços tratados com uma solenidade que a natureza raramente lhes concedeu. Não interessam a espessura, a densidade ou a capacidade de sobreviver a uma rajada de vento. O importante é que o algoritmo decretou que o bigode voltou e, como sempre acontece, milhares de homens decidiram que a natureza havia de obedecer às tendências.

Não obedeceu.

Há buços tão ralos que parecem desenhados a lápis por um arquiteto indeciso. Outros lembram o pó que fica na escova depois de aparar a barba. Alguns são apenas uma sombra castanha entre o nariz e o lábio superior, como se a puberdade tivesse feito uma visita rápida e prometido voltar mais tarde.

O curioso é que o novo bigode raramente comunica irreverência ou maturidade. Comunica intenção. Vemos menos um homem e mais um esforço meticuloso para parecer um homem que bebe café de especialidade, fotografa em analógico, ouve discos de vinil e trata o barbeiro por "artista". O buço deixou de ser pelo. Passou a ser branding.

Sempre houve homens que tinham cara para bigode. Era quase uma vocação facial. O bigode completava-os. Agora é o contrário: há rostos inteiros sacrificados para servir uma moda que lhes fica como um casaco dois números abaixo.

A estética, infelizmente, não é democrática. Nem tudo fica bem a toda a gente. Há quem tenha nascido para usar chapéu, há quem consiga vestir uma camisa de linho sem parecer um empregado de esplanada, e há quem possa usar um bigode sem dar a impressão de que perdeu uma aposta.

As modas têm este péssimo hábito de ressuscitar os mortos errados. Hoje foi o bigode. Amanhã pode ser o cabelinho à Paulo Bento. Depois a peúga branca. Qualquer dia deixamos de seguir tendências e passamos a frequentar sessões de espiritismo estético.

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