2026-07-19

Ventilação

Todas as manhãs, o mesmo ritual: escancaram-se as janelas, sacodem-se as almofadas e, durante dez minutos, a casa respira como se tivesse alguma coisa a confessar. Entra o ar de fora — o mesmo ar que, minutos antes, saiu de outra casa, carregado do que os vizinhos cozinharam ou discutiram — e sai o de dentro, como se o simples trânsito de moléculas resolvesse o que ficou por dizer à mesa do jantar.

Há qualquer coisa de exorcismo doméstico nisto. A crença de que basta uma corrente de ar para dissipar o cheiro a fritos, ao silêncio ou ao desacordo. Abre-se bem a janela, deixa-se entrar o fresco e espera-se que alguma coisa, lá dentro, fique mais leve. Arejar como acto de higiene moral: já não se limpa a consciência, ventila-se.

Ao fim de dez minutos fecha-se tudo outra vez, porque o frio também não é visita para demorar. A casa arrefece, cheira melhor e continua exactamente com os mesmos problemas. Só que agora estão bem arejados.

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