2015-06-26

Alegria à americana



Depois de ler a notícia na imprensa portuguesa, resolvi ir dar uma vista de olhos à imprensa americana: afinal acabo sempre de cara à banda com as peculiaridades daquela gente e as coisas mais estranhas em que acreditam e o que são capazes de defender. E há sempre um sinal óbvio de que estou a ler um idiota ignorante americano (e como há tantos!): escreve pior inglês do que eu, com mais erros, menos pontuação e certamente menos sentido.

(Agora uns querem imolar-se enquanto outros querem divorciar-se porque o casamento dos gays vai dar cabo do casamento deles. Acho mal! Ninguém deve morrer à conta da estupidez causando efeito de estufa, mas mais ainda porque deve é manter-se a ignorância confinada num único lar e, de preferência, impedida de reproduzir-se.)

2015-05-23

Opinião só sem lucro

"tudo o que não é opinião, mas sim publicidade deve ser identificado de forma clara e inequívoca para não haver erros de interpretação."

  http://www.dinheirovivo.pt/Buzz/Publicidade/interior.aspx?content_id=4582583

2015-04-28

O menor de...



Fiz campanha pela despenalização do aborto. Continua a fazer sentido dentro da minha cabeça evitar a imbecilidade de só ser a mulher criminalizada por um acto onde estão sempre presentes pelo menos dois. Faz sentido para mim que nem se questione a opção em casos de violação. E no entanto... no entanto a lei tem prazos por algum motivo, prazos que remetem para o momento em que o feto passa a sentir dor, em que o monte de células passa a ser bem mais do apenas isso. Por mais que tenha sempre defendido a despenalização, por mais que a defenda veementemente em caso de violação, por mais que me choque ter sido uma criança violada, neste caso já não. Seria outro crime.


2015-03-19

Da responsabilidade

«Responsabilidade política 

do Governo Perante a Assembleia da República 
-O Governo é responsável políticamente perante a AR, pela sua actividade e pela actividade da administração dele hierárquicamente dependente. 

Perante o Presidente da República 
-Existe uma responsabilidade política do Governo perante o PR e existe uma responsabilidade política do PM perante o PR» 

Professor Dr. J. J. Gomes Canotilho

E depois há os irresponsáveis...

2015-02-23

Ai o absurdo!


E como sempre sinto-me a viver num mundo à parte! Um mundo que não percebe o sucesso de obras de qualidade mediana nem a histeria que as rodeia. Sendo que todas as gerações têm as suas pancas quanto à sexualidade, desde os gregos e os seus meninos passando pela cegueira à conta da masturbação ou da negação do prazer feminino delegado para crises nervosas, até percebo que uma sociedade que não se importa de ver cabeças a serem decepadas em prime-time mas não pode ver maminhas no Super Bowl se passe por completo com umas algemas ou umas chibatas. Mas na Europa? Poupem-me!

2014-12-30

Bom Ano!



É que parece que este, de tão má memória, não quer partir. 

Eu ainda fui a tempo de me partir toda antes de brindar a 2015 :(


2014-12-22

A minha avó morreu há um mês

(Este repost é para ela)


E, sim, era como um suspiro esta coisa de lhe bordejar a porta pela noitinha e tentar ainda sentir o cheiro a leite-creme queimado com um velho ferro de passar a ferro. Como no tempo em que nos abria a porta de mansinho, puxando o nagalho ao cimo da escada que destrancava a velha fechadura enferrujada. Ou de quando lhe saltávamos ao quintal atrás dos magnórios e das peras e ela fazia de conta que não sabia que estávamos lá. Ou de quando nos contava histórias do fantasma que habitava a casa, morava lá no sótão e só descia pelas vésperas para ajudar a pôr a prece em dia. Ou então de como tinha sido o tempo em que ali havia uma família e gente que se beijava e abraçava pelo correr das horas, enquanto pelos velhos corredores ainda havia passos pequeninos a dizer que a vida havia de continuar para além das vidas que partiam. Ou de quando enfim deixou de poder estar sozinha e afinal parecia que já ninguém tinha espaço para ela e como foi mirrando ao cimo das escadas, à espera que pela noitinha alguém viesse espreitar-lhe as cores e o estado e as maleitas. E depois, quando partimos a estudar longe e já ninguém lhe bordejava a porta, deixou-se ficar cada vez mais sozinha e já nem o velho fantasma lhe fazia companhia nas ladainhas. Morreu sozinha ao cimo das escadas, amparando a solidão de tia velha. E foi quando ela nos faltou que a casa pareceu pesar-nos uma tonelada de mágoas e já pouco importa que seja nossa. Era nossa antes, quando ela lá estava, com os seus fantasmas e as suas histórias. Agora é uma casa que nos tem, mas onde não pertencemos. A casa que herdamos, mas não merecemos. E mesmo quando puxamos o nagalho ao cimo da velha escada rangente para deixar que a porta se abra, ainda assim a escada queixa-se como se nos dissesse que não somos de lá. E é por isso que voltamos a fazer leite-creme queimado – que nunca vai saber ao mesmo – e replantamos a nespereira e a pereira do jardim. Mas até os frutos sabem diferente. E não há vésperas, claro: nenhum de nós aprendeu a rezar de forma a que até os fantasmas nos seguissem as preces. E a tia-avó partiu e não deixou fantasma. E mesmo que haja gente pela casa, no 52 já ninguém mora.

2014-11-09

Três tempos da memória



25 anos! 

A História - a verdadeira - é feita de gente anónima, gente vulgar, gente capaz de pequenos gestos de heroísmo, gente que vira as costas, gente apanhada num turbilhão que não entende, gente que sobrevive, gente que morre, gente que mata, gente que faz a festa. 

No tempo de uma geração, podemos ser tudo. Num Outubro de há 25 anos fomos gente anónima na rua a fazer a festa por entre os escombros de um muro que ruía. 

Será que ainda nos lembramos o que era viver naquele mundo em que uma parede era mais uma ferida aberta do que uma cicatriz? O que foi viver aqueles tempos de euforia e como tão rapidamente toda a esperança foi comida pela realidade? 

O Muro de Berlim tem três tempos na minha memória: um tempo em que existia e dividia; um segundo momento, muito breve, de fé e exuberância quando foi derrubado e me fez acreditar num futuro brilhante em que tudo seria possível; e este momento de agora, onde já fica resumido a mais um velho símbolo de uma fé ingénua que só fui capaz de ter brevemente, muito brevemente, na minha pequena história de vida cheia de ruínas e símbolos soçobrados.