2006-09-17

Herança



E quando alguém chega a conhecer-nos tão bem que não importa quantas máscaras, quantos disfarces, quantos embustes construímos para enganar o sentimento? E quando deixam cair umas quantas palavras certas, umas quantas imagens e, de súbito, tudo rompe e se alaga num mar de lágrimas que o tempo, a dor, a frustração, o crescer e o sobreviver, já não calam nem escondem? E quando alguém sabe como enganar os nossos enganos e subterfúgios e a pose e os anos e os desencontros? E quando fazem jorrar tudo num momento único?...

13 comentários:

vanus disse...

Quando isso acontece deves dar-te por feliz; é simples ;)

Hipatia disse...

Sim, é tão simples que nem queremos acreditar :)

deep disse...

Talvez sejam esses momentos únicos que nos permitem continuar mentalmente são, porque nos dão a oportunidade de arrumar "gavetas", deitar fora ou reutilizar as emoções que julgamos gastas e fora de moda. Sabe tão bem chorar, por vezes; é tão reconfortante lavarmo-nos em lágrimas de quando em quando...

Bom resto de fim-de-semana.

Hipatia disse...

Lavar a alma? Talvez seja isso mesmo...

:)

Joshua disse...

Lê ou relê o Lamento de um pai de Família, de Jorge de Sena, e tira-me, se puderes, esta sensação de odor a arroto a postas de pescada na tese sobre a mediocridade alheia de que todos parecem experimentados especialistas, menos eu.

Há posts que são subtis sermões do lado certo de se estar na vida e na blogogrelha.

TheOldMan disse...

É sempre bom termos alguém assim, Hipatia.


;-)

Hipatia disse...

Joshua, vi bem o que fizeram lá no teu. E fedeu. Por estas bandas, tarde ou cedo fede em todo o lado. Até por aqui, quando leio merda. E há muita merda para ler. E às vezes conspurcam ou tentam conspurcar. Mas digo-te já: não tiro nem uma vírgula. Está escrito, provavelmente já houve quem enfiasse a carapuça. Quase de certeza os do costume, medíocres e convencidos. Mas não é porque a merda fede que devemos inspeccioná-la de perto. Basta - apenas - evitar certas esterqueiras e/ou evitar que nos entrem porta dentro.

Hipatia disse...

É sim senhor, Old Man :)

Joshua disse...

Sim, concordo contigo, mas para mim «merda» além de encaixar no que tu dizes, também é a pedantaria e a inflexibilidade, é a suficiente falta de condescendência para reconhecer que somos merda, da merda viemos e para a merda iremos, que, no fundo e na realidade, não somos assim tão diferentes uns dos outros (quer inspeccionemos de perto ou não a merda que nos fazem), por muito que nos queiramos demarcar, por isso é que refuto qualquer tirânica verve judicativa do tipo «nós aqui», vocês aí, nesse estágio de desenvolvimento» no lidar com o problema de um ataque soez.

Já pensaste em como, barrando liminarmente o acesso a nossa casa, se está também a ceder à chantagem e a ceder ao baraço da ameaça? Pensa que no nosso quotidinano é inevitável mexer na merda, é um acto sanitário incontornável e que, ao removê-la também a conhecemos e reconhecemos no sentido de a remover melhor. Evitar a merda é deixar de funcionar, digerir, metabolizar.

Acredito numa capacidade de compreensão mais lata que a minimização dos outros que aqui fui lendo, reduzidos ao estuto de «escribas» e a eufemismos sem qualquer afecto e sem solidariedade concreta.

Também isso é merda.

Hipatia disse...

Não fecho a porta a ninguém. Tenho a vantagem de saber demasiados podres, sendo que sabem poucos de mim; e a vantagem acrescida de ter fomentado amizades, em lugar de as hostilizar. Isso faz toda a diferença. Também há poucas dúvidas sobre a forma como me passo dos carretos, quando me passo. E se chego a ter cromos fedidos por aqui, o mais certo é rir-me da mediocridade que espelham. Obviamente que é uma postura pedante da minha parte. Mas é, essencialmente, uma postura solidária. Até porque os ataques mais soezes são - quase sempre - direccionados a pessoas bem melhores do que eu e que, no fundo, nem mereciam. Eu não sou boa pessoa. Nunca disse que o era, nem inventei boneco a dizer que sim. Talvez por isso os amigos permaneçam. E para os amigos estou cá. Pouco importa o que pareça ou deixe de parecer: amigos preservam-se; são demasiado importantes. Quando demonstram que não merecem, então rapidamente lhes viro as costas: é a liberdade de não dever nada a ninguém, de não precisar de ninguém, de ter o cu tapado por entre demasiados cus ao léu. O resto, segue como de costume. E, daqui a uns tempos, haverá um novo post parecido. A merda é cíclica também.

E ficavas muito espantado se te dissesse que parte do fundamento do texto tem a ver com o que li lá no teu?

Joshua disse...

Não ficava de todo. Se quiseres, desenvolve essa revelação.

Hipatia disse...

Acho que o assunto já morreu.

... por agora.

Anónimo disse...

Mais Vozes

As lágrimas que este filme e esta cena já me fizeram derramar!

bj
maria | Homepage | 09.17.06 - 2:14 pm | #

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Sempre achei que Alfredo tinha deixado a melhor das heranças a Salvatore: o momento único em que o desenganado e envelhecido homem, reencontra a criança que foi. E é graças a Jacques Perrin e nos seus olhos alagados em lágrimas que vemos Totó regressar. E é esse encerrar de ciclo que se abre numa nova possibilidade que nos comove até à medula, não é? Mais do que aquilo que se vê, está o que se intui e por isso nos identificamos. Obviamente, a música ajuda. Mas tenho para mim que o underacting de Perrin é ainda mais poderoso: ele podia - facilmente - ter estragado a perfeição desta cena final e não o fez.
Hipatia | Homepage | 09.17.06 - 3:30 pm | #

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Oh Hipatia, que saudades que tinha deste teu texto que nunca tinha lido.
Deve haver mesmo coisas 'muito comuns' a todos/as nós pois este sentimento de saber tão bem quando alguém consegue ver para além de nós e das máscaras que nos colocamos porque sim, este sentimento profundo que só (?) o Amor dá de chegar a casa, é uma utopia universal dos nossos tempos (ou pelo menos das pessoas apaixonadas).

Quando a mácara já te vinca a pele e mesmo assim alguém consegue ver e tocar a tua pele ali tão vulnerável e macia...é mesmo um momento único, um jorrar de vida.


E o youtube ! As memórias dos filmes, a música, o ambiente e...
o espectador, mui guapo
vague | Homepage | 09.17.06 - 5:22 pm | #

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Não conheço muita gente que fosse capaz de deitar abaixo todas as minhas defesas, Vague. Tenho demasiados anos de prática em erguê-las bem altas. Mas há sempre alguém que nos surpreende...
Hipatia | Homepage | 09.17.06 - 5:39 pm | #

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Seria perigoso, Hipatia
vague | Homepage | 09.17.06 - 6:29 pm | #

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Curiosamente este filme remete-me para a ideia precisamente contrária.
E.A. | Homepage | 09.17.06 - 7:34 pm | #

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Claro que seria, linda
Hipatia | Homepage | 09.17.06 - 10:28 pm | #

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Conta-me, então, como é essa ideia para onde te remete
Hipatia | Homepage | 09.17.06 - 10:29 pm | #

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Tu até já a leste.

aqui: http://frutos-de-sombra.blogspot.com/2006/06/reciclar.html
E.A. | Homepage | 09.18.06 - 6:53 am | #

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Mas eu não estou a meter a Elena ao barulho Só o Salvador a redescobrir-se na sua forma mais inocente e pura
Hipatia | Homepage | 09.18.06 - 1:53 pm | #

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Claro. Essa é a faceta mais lembrada do filme. Eu sou chato e lembro-me da outra.
E.A. | Homepage | 09.18.06 - 7:09 pm | #

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Sabes bem que a reconheci prontamente :P Mas prefiro o final feliz
Hipatia | Homepage | 09.18.06 - 7:26 pm | #

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Final feliz em que toda a gente chora baba e ranho, de onde se percebe que chorar nem sempre é mau sinal. :-p
E.A. | Homepage | 09.18.06 - 7:47 pm | #

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Roubo o título a João de Melo: gente feliz com lágrimas. Porque não há nada mais triste do que uma pessoa seca, que já não tem mais lágrimas para chorar
Hipatia | Homepage | 09.18.06 - 9:17 pm | #