2008-05-02

Coisas que me irritam


aqui


Acho que vou abrir uma secção especial só para as coisas que me tiram do sério. E começam a acumular-se e eu começo a ficar com coisas atracadas e, convenhamos, ter coisas atracadas não é a melhor forma para ter as coisas, especialmente as que nos irritam.

E ter um blogue também tem de servir para isto, especialmente se algumas das coisas que me irritam até se prendem com algumas coisas que acontecem nos blogues. E talvez seja tudo uma questão de se ser ou não se ser e do parecer e do não parecer nas palavras que publicamos. E com a curiosidade que sempre me despertou a forma como eu também sou lida, treslida ou pura e simplesmente passada a diante, como faço com quase todos os blogues onde desaguo ou desaguei alguma vez.

Faz-me muita espécie gente que tem de estar sempre a dizer o que é, como se fosse preciso uma definição em cada post, ou em cada comentário. Ora, o que somos acaba por passar sempre, até quando mais nos esforçamos por não deixar passar nada. Obviamente que pode demorar mais ou menos tempo, dependendo da franqueza com que encaramos o teclado. Ou até pode ser preciso ir matando nicks para ver se a coisa se aguenta mais um bocadinho, mas haverá sempre rabos de fora, visíveis até para os mais distraídos como eu. E, se a cara não bate com a careta, ou nos passamos a divertir com a anedota ou simplesmente passamos à frente.

Mas o que me irrita mesmo é esta mania de todos se quererem fazer passar por algo que, socialmente, será certamente impossível serem. Como um certo rebanho de gajedo que se define em cada palavra como se fosse sempre muito boa, tão boa que nem prestam contas, que só se enfeitam para agradar a si mesmas, que só compram a carteirinha da moda para se darem mimos, que pintam a unhaca para elas, que se penteiam só para beijar a própria imagem no espelho e que só lavam os dentes porque as próprias narinas estão demasiado próximas da dentuça. E, obviamente, só fodem muito e muitas vezes para fazerem exercício e libertar as endorfinas ou só depilam as pernas e a cona por motivos higiénicos.

E este gajedo todo vem para os blogues apregoar uma autoconfiança que eu sei que não existe, porque ninguém existe só nas palavras em que se quer inventar, nem para além da necessidade social de pertencer a um grupo, com os seus códigos e os seus signos; ou a própria necessidade biológica de arranjar parceiro, o que implica necessariamente agradar a bem mais do que a si próprio. A auto-imagem é condicionada por mais do que os nossos olhos; é condicionada pelo que pensamos ver nos olhos dos outros. O mesmo para auto-estima, que não é coisa que brote de palavras, tem de ser profundamente entranhada, muito para além dos supostos mimos que nunca são para agradar aos outros, nem as carteiras que são sempre iguais às das amigas e amarelas, mesmo que há um ano atrás, quando o amarelo era pimba (não sei se era, mas adiante), nunca se atrevessem a usá-las.

Pois irrita-me. Muito. Porque ninguém é completo sem imperfeições e ninguém tem autoconfiança ou auto-estima se não tiver também uma profunda noção de ridículo pessoal e o sentido de humor suficiente para lidar com as inseguranças que todos temos.

Gajedo inseguro a apregoar autoconfiança é profundamente ridículo. Bem mais do que todas as palavras do "eu sou assim para me agradar" ou o "eu nunca faço nada para agradar aos outros, que são obrigados a gostar de mim, que sou tão boa, tão boa, que nem preciso de mais ninguém". Tretas! Tretas de gajedo armado em parvo, a vir esparramar palavras mentirosas a ver se convencem alguém. O triste – o que é realmente triste – é que nem sei se se convencem a elas mesmas. Mas lá que usam as palavrinhas todas, usam. E que fazem figura, fazem. E que talvez consigam que alguém lhes tente saltar à cueca, também é possível, ainda que eu ache bem mais provável que, por trás de tanta palavrinha, ou esteja um verdadeiro mono em quem ninguém toca, ou então alguém que anda a copiar todas as revistas da moda e a passar completamente despercebida por entre uma multidão de gajedo igual, que só nas palavras escritas em blogues parecem ter espinha e talvez rodem de cama em cama a acharem-se muito fodilhonas, mas a acabarem sempre sozinhas quando chega a hora da verdade.

E eu, convenhamos, irrito-me. Muito. Ou então tenho de me rir. E nunca é agradável nem estar irritada nem ter no trombil aquele meio sorriso de dó pelas figuras dos outros. Depois, olho por mim abaixo e vejo os defeitos todos e as inseguranças e tento rir-me de mim. Enquanto o conseguir fazer, sei que sou bem mais completa, nos meus defeitos e nas minhas valias, bem mais completa que qualquer dondoca armada aos cucos a dizer como é boa, tão boa, que só lhe falta o tapete vermelho cada vez que abre a porta de casa. Do cuecame que tem escondido dentro de portas é que é melhor nem falar.

11 comentários:

Luna disse...

Tem piada, e' que me sinto mesmo identificada com este post, especialmente nos ultimos dias. Tao tao tao, que ate desconfio que andamos a ler as mesmas coisas! Sera? ;)
Bjinhos

Luna disse...

P.S. Raramento comento, miuda, mas nao ando distraida. :)

Hipatia disse...

Às tantas, andamos ;-)

Sabes, gosto muito de neurónios. E uns bons neurónios raramente ficam bem em fotografias de publicidade duvidosa ;-)

Hipatia disse...

eheheh

Eu ando mesmo sem tempo e, por isso, também mal tenho comentado seja onde for. Mas também não ando distraída. Valha-me S. Bloglines!

vanus disse...

Estás a ver porque depois eu escrevo o "tenho cona, logo sou boa de cama" :)

Estive mesmo para escrever sobre isso, não irritada porque neste caso aí de cima, achei muita piada o facto de um texto divertido e descomplexado (é o que todas se queixam de quem não é assim como elas, terem complexos e serem mal fodidas), abalar a auto-estima de uma super bomba sexual ao ponto de ter que escrevê-lo, até porque em dezembro já tinha escrito sobre isso, remember?

Claro que isto tudo é ridículo. Construir uma imagem que se quer passar, é uma coisa, mas confundirmo-nos com ela é outra completamente diferente.
Depois as pessoas esquecem-se que quem as lê também fode, também tem prazer, também vive e conhece os outros e a si mesmo, tem experiência, e vá, com muito esforço e lambidela também é capaz de ter um bocadinho de auto-estima :p

Na realidade, acho que o que as tira do sério mesmo, é que haja pessoas que não precisem dessa montanha de "eu sou", "eu faço", "eu isto", "eu aquilo", para terem o que elas tanto dizem que têm, e que supostamente serão as únicas.

Ou na volta se uma gaja foder toda pintada e de saltos altos, a coisa do outro lado cresce mais um ou dois centímetros... pera lá que tenho que experimentar :D:D

É tudo para rir Hipatia, o que te falta é teres alguém perto para ir cuscando nestes casos, lembras-te o que é ler isto acompanhada? O que nos divertimos? ;)

Hipatia disse...

É até mais complicado do que isso. Porque tanto "não devo nada a ninguém" chega a ser sinónimo de uma psicopatia qualquer, não é? As pessoas realmente inteiras e bem acabadas vivem em sociedade, são seres gregários e têm necessariamente que agradar. Na ânsia de se criar uma imagem de boa que não existe para além da palavra escrita, há quem esqueça que, do outro lado, pode haver quem considere esta gente doente, associal na melhor das hipóteses, muito mal acabada, no outro extremo, com todos os cambiantes de deformações pelo meio. O que, convenhamos, não deveria ser o objectivo do "artista" quando se deu ao trabalho de "construir" o boneco. Mas tens razão quando dizes que é para rir. Já tratei de o recordar a mim mesma no vídeo ali em cima ;-)

E acho que também tenho de experimentar os saltos e a pintura a ver se têm efeito multiplicador, lol

deep disse...

Estás mesmo zangada! Livra, vou já sair de mansinho antes que sobre pra mim!

I. disse...

Primeiros:sim senhora, malinha amarela era pimba o ano passado e ou me engano muito ou vai voltar a ser para o ano.

Segundos: se uma gaja não depila a passarinha por eles, vai fazê-lo por si? A sério? Se o que aquilo deve doer ainda trouxesse alguma compensação, até entendia, mas de outra forma, é porque é doente, é o que é. (e não é nada mais higiénico, se tiver o hábito de tomar banhinho vai ver que o pelame não trás qq problema. e a comichão quando o pelinho começar a crescer? nem quero imaginar...).

Terceiros: adoro, adoro blogues de mulheres emancipadonas que odeiam feministas porque são todas umas ressabiadas e umas mal fodidas e elas é que não, que são muito modernas e femininas e p'rá frente. Amo, deliro, com blogues de tiazorras muito fashion que têm sempre a roupa e a malinha da marca certa e mais in, que são cultíssimas e mai não sei o quê. Sou maluca por gajas (e gajos) que não existem a não ser na sua imaginação, e ainda mais porque nunca se coibem de cagar sentenças sobre os outros, porque eles é que estão e são a sério e sabem como é e deve ser.

Que queres, gosto de ficção. Principalmente gosto de ficção que se tenta passar como biograficamente correcta,que é a melhor comédia da vida pública que pode haver!

(queres trocar cromos ;P)

Hipatia disse...

Para ti nunca ia sobrar, Deep :)

Hipatia disse...

LOL! Essa dos cromos para trocar está mesmo bem apanhada, I. É que começa a ser isso mesmo: para todo o lado para onde olho, há um cromo perdido. E até eu, que ando tão sem tempo, acabo a encalhar em algum.

E obrigada pelo explicação da malinha: parece que afinal não ando a ver mal e anda para ai uma enxurrada de malinhas amarelas de virar o estômago às mulheres como eu, tão distraídas.

E, sim, quando não me irrito com óbvias asnices, também adoro "blogues de mulheres emancipadonas que odeiam feministas porque são todas umas ressabiadas e umas mal fodidas e elas é que não". E adoro especialmente quando alguém lhes acena com uma carapuça e elas, tadinhas, as enfiam até às virilhas ;-)

Anónimo disse...

Mais Vozes

bolas, que ela irritou-se mesmo!
pois olha, vou-te irritar ainda mais: sou boa como o milho (boa pessoa, claro!, e adoro milho cozido); ando todos os dias de saltos altos (é uma imposição do trabalho e só os deuses sabem o que me custa, que eu cá gosto mesmo é de sapatinho raso...); a minha lingerie sexy é espectacular (mas só na minha imaginação, detesto coisas desconfortáveis); e mais? ah! sou tão, mas tão, tão, tão fabulosamente charmosa que o meu marido está caídinho por mim. o meu marido não conta? merda!
fábula | Homepage | 05.02.08 - 11:14 am | #

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LOL

Pois eu sou mais ou menos como tu, tirando a parte do teu marido e a parte dos saltos que, felizmente, ninguém me obriga a usar
Hipatia | Homepage | 05.02.08 - 3:32 pm | #