2009-10-20

Espartilhos


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O problema quando estamos a lidar com doenças como a anorexia e a bulimia é que elas só até certo ponto estão relacionadas com a beleza. A compulsão vai muito além disso, mesmo que tenha começado por um desagrado com o corpo por comparação imposta, aprendida ou bebida de qualquer forma dos padrões da sociedade. Aquela gente prefere morrer a comer; chegam a um ponto em que até sabem que estão a morrer, que estão demasiado magras, mas há ali um nojo da comida e delas próprias que as impedem de ter força para ultrapassar a doença.

Depois há o lado oposto, de gente tão gorda, mas tão gorda, que nem de banda gástrica lá vai. Gente que sabe que está gorda, demasiado gorda e, ainda assim, continua a comer, a não fazer exercício. E continuam a comer muitas vezes porque é na comida – especialmente nos açúcares – que encontram o estímulo que as leva, o refúgio que lhes apazigua a alma quando chegam a já nem se poder mexer e a auto-estima há muito que partiu de abalada. E, mais uma vez, entramos em casos patológicos.

No meio-termo, vivem todos os outros. E, se é certo que em terra de gordos, quem for magro é rei, também é certo que há um bombardear constante de mensagens e de imagens que nos tentam enfiar num qualquer rebanho. Hoje em dia, o rebanho dos magros por lipoaspiração ou redesenhados nos spas da moda.

Sabermo-nos diferentes e especiais dentro da nossa normalidade, sem necessidade de nos mascararmos ou escondermos atrás dos objectos que a publicidade sempre presente nos quer impor como ideal de vida, torna-nos subversivos: o rebanho é sempre bem mais fácil de conter dentro do redil.

6 comentários:

I. disse...

Depois de ter visto muitos rabos celulíticos de espanholas em bikini (algumas delas até eram magras, espante-se), acho-me boa comó milho, diga a balança o que disser (tenho celulite, claro, mas aquilo que vi, ohmygod, aquilo que vi era o paraíso do lipoaspirador. a minha gordura é de primeira e muito mais firme - eu chequei antes de me enfiar no fato de banho :P)

Fora de brincadeira, cada vez é mais difícil uma pessoa sentir-se normal. Para ser normal eu tinha que passar fome, ou ir bombar ao ginásio todos os dias. E não quero nem consigo. Mas depois das visões que já descrevi supra, tomei a decisão de me cuidar melhor, que não quero acabar uma gelatina ambulante.
(e alemãs obesas, também vi muitas. de mais. cruzes)

Hipatia disse...

Podes crer! E reparaste como o cu e as barrigas dos gajos começam a ter tanta celulite como os das gajas e nem sequer têm a desculpa da pílula? Fiquei parva para a vida! E senti-me muito elegante. É que eu tenho um bocado de celulite na barriga (quem não tem, tão perto dos enta?), mas no rabo e nas pernas não. Costumava achar que o meu corpo era desequilibrado, com ar de desenho animado, maior em cima e com umas pernas fininhas em baixo. Mas gosto cada vez mais das minhas pernocas e das mamocas também. Se entram nas medidas padrão? Obviamente que não. Mas uma das virtudes de estar tão próxima dos enta é não encarreirar pelo padronizado e apreciar o meu corpinho, cheiinho, com tanto sítio por onde deixar agarrar e sem provocar nódoas negras no parceiro, ao enfiar um joelho do tamanho de um cotovelo em qualquer parte sensível. O pior continua a ser arranjar camisas que não se transformem em pistola de pressão de ar com um simples suspiro disparando botões. Mas também já cheguei ao ponto do quero lá saber. Um casaquinho por cima e está a andar :D

(não sou normal; sou bastante banal, mas prezo muito todos os esgares em contramão da norma que ainda consigo preservar)

Tuxa disse...

Poderosas palavras com que terminas o post...
Mas o chavao e as estatisticas estao por todos os lados. Ou se faz parte dos gordos ou dos magros ou normais. Dos que fazem operacoes ou dos que nao as fazem.
Para mim, francamente, cada um que faca o que entender (sem entrar nos casos patológicos, como referes) desde que nao se imponham sobre mim. E isso cabe-me apenas a mim. Nao deixar que aconteca.

Hipatia disse...

Claro que estão, Tuxa. Afinal, o Big Brother sempre foi mais do que chips electrónicos nos carros e cartões do cidadão com os dados todos compilados prontos para serem (mal) usados ou leis que permitem a leitura de e-mails. Passa muito mais por uma padronização de mentalidades e uma carneirização de gostos e modos de ser. E, já agora, dar muito pão e circo.

Paulo Abreu e Lima disse...

Gosto muito destes posts porque de uma maneira ou de outra vai-se sabendo como é o rabo da menina X e as mamocas da Y. Pontos de referência, portanto :P

Hipatia disse...

O que me espanta é ainda teres curiosidade em saber. Tantos anos depois, achas mesmo que já não sei que todas curiosidades que pudesses ter já estão há muito respondidas e não necessariamente por quem escreveu o post? Cusco! :P