2026-01-04

Doutrina "donroe"

Ah, meus caros, sirvam-me um copo de tinto, mas que seja do Douro, que o Napa Valley agora paga taxa de importação de luxo e o paladar deles sempre soube a hegemonia com aroma a carvalho novo.

​Sento-me aqui, no outono desta Europa que cheira a biblioteca velha e mofo, a olhar para os jornais deste início de 2026. Eu, que vi o Muro cair em Berlim com o coração a bater como se a História tivesse, finalmente, aprendido a ler e a escrever. Eu, que celebrei o fim da Guerra Fria com a ilusão de quem achava que o mundo seria, dali em diante, um jardim de infância gerido por filósofos. Que pateta fui, não é?

​Agora, vejo o "Don" a desenhar mapas com o mesmo giz de quem marca o território numa briga de taberna. Chamam-lhe "Doutrina Monroe", dizem os académicos com os seus óculos na ponta do nariz. Mas eu, que ainda sinto o frio dos anos 80 nos ossos, vejo ali outra coisa. É o regresso do Lebensraum, mas servido com um hambúrguer de plástico e uma aplicação de rede social.

​É a "Doutrina Donroe",  dizem. Um destino manifesto onde o "espaço vital" já não é o Leste europeu, mas sim tudo o que fica a sul do Rio Grande e a norte da Antártida. O Hemisfério Ocidental transformou-se no "quintal privativo" do Xerife. Se tens lítio, és "espaço vital". Se tens migrantes, és "ameaça biológica". É uma geometria política feita de muros e espelhos: o Don olha para o mapa e não vê países, vê imobiliário.

​E nós? Nós, a Europa...

​Nós somos a velha tia solteirona que ficou a falar sozinha no salão, enquanto os sobrinhos decidem quem herda a mobília. Sobrevivemos à Guerra Fria para morrermos de tédio e irrelevância nesta "Guerra Morna" de 2026. Em Washington, dizem que somos um "museu a céu aberto", uma civilização que se esqueceu de como se faz um soco. E talvez tenham razão. Enquanto eles discutem anexar a Gronelândia como se fosse um anexo para arrumações, nós aqui na UE discutimos o tamanho regulamentar das maçãs e a curvatura dos pepinos.

​É cómico, se não fosse de chorar. A Doutrina Monroe original era para afastar os reis europeus. Esta nova versão é para nos convencer de que nem sequer existimos. O Don olha para o Atlântico e vê um fosso, não uma ponte.

​É trágico ver o mundo voltar a dividir-se em "zonas de caça". É o regresso aos impérios que não conversam, que apenas rosnam e marcam o chão com urina estratégica. Eu, que sonhei com o fim das fronteiras, vejo agora o mapa mundi a ser retalhado por um mestre de obras que não aceita orçamentos de fora.

​Deem-me mais um gole. No fim de contas, o fim da História foi apenas um intervalo comercial. O filme que está a dar agora é a preto e branco, mas as legendas são em cirílico, mandarim e, acima de tudo, num inglês que já não reconhece a palavra "aliado".

​A Europa está calada, dizem? Não, meus caros. A Europa está apenas a tentar perceber se ainda tem voz, ou se o nó na garganta é apenas o medo de que o próximo "espaço vital" a ser negociado seja o nosso silêncio.

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