2026-01-09

Flor do Mal


Dizem que o amor é cego, mas talvez o amor seja, na verdade, a única forma de visão que suporta a escuridão total. Em Flower of Evil, não somos convidados a assistir a um crime; somos convidados a observar o desmoronamento de uma máscara que, de tão bem esculpida, se tornou a única verdade de um homem.

​Baek Hee-sung — ou o fantasma de Do Hyun-su — é um mestre da metalurgia, mas a sua maior obra foi a própria vida. Ele moldou o metal para criar beleza e moldou o rosto para simular o afeto. É perturbador e, ao mesmo tempo, profundamente triste vê-lo praticar sorrisos em frente ao espelho, como quem aprende uma língua estrangeira para sobreviver num país onde nunca será cidadão: o país dos sentimentos.

​E depois temos Ji-won. Ela não é apenas a detetive que persegue a verdade; ela é a mulher que vê o monstro e decide, com uma coragem que roça a loucura, procurar a criança ferida que habita lá dentro. No silêncio daquela casa perfeita, o suspense não nasce do sangue derramado, mas do som do vidro a estilhaçar-se — o vidro da ilusão.

​Nesta série, a Coreia oferece-nos o oposto do ruído vazio a que o cinema ocidental nos habituou. Aqui, o mal não é uma caricatura; é uma herança pesada, um estigma que se cola à pele. Mas a beleza desta "Flor do Mal" reside precisamente na sua raiz: a descoberta de que mesmo alguém convencido da sua própria incapacidade de amar pode, no fim, ser salvo pelo reflexo do olhar de quem nunca desistiu de o ver por inteiro.

​Afinal, a verdade não nos liberta apenas. Às vezes, ela destrói-nos primeiro, para que possamos, finalmente, ser reais.

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