Dizem que o amor é cego, mas talvez o amor seja a única forma de ver no escuro total, sem precisar de apontar a lanterna a nada.
Flower of Evil não me convidou a assistir a um crime. Convidou-me a ficar a olhar para uma família perfeita a desmoronar-se devagarinho. E a não conseguir desviar os olhos.
O homem que vive naquela casa chama-se Baek Hee-sung, mas não é. É Do Hyun-su — filho de Do Min-seok, assassino em série de sete pessoas, o tipo de pai que deixa uma herança que não se pode devolver nem recusar. Hyun-su cresceu com esse espelho à frente e passou a vida a tentar perceber se o reflexo era ele. Fugiu. Bateu no verdadeiro Baek Hee-sung com um carro, ficou com o nome do homem em coma e reconstruiu-se do zero — ferreiro, marido, pai. Pratica sorrisos em frente ao espelho. Aprende afeto como quem estuda uma língua estrangeira, que nunca vai dominar completamente, mas que precisa de falar para sobreviver.
E depois há o verdadeiro Baek Hee-sung, que estava em coma mas não estava morto, que que quando acorda é muito pior do que qualquer coisa que Hyun-su alguma vez foi. Porque esse sim é o psicopata acabado, o aprendiz do pai, o mal sem dúvida nem remorso nem filha à mesa ao jantar.
A filha. A Eun-ha. Seis anos, adora os pais, não sabe de nada. E é ela que torna a questão impossível de ignorar, porque enquanto ela existir a pergunta "ele é capaz de amar?" deixa de ser filosófica e passa a doer. Porque ele age como pai. Está lá. Protege-a. E não se sabe — ele próprio não sabe — se isso é amor ou se é apenas o programa a correr bem.
Ji-won, esposa, polícia. Ela sabe. Ou suspeita. Ou escolhe não saber de vez, que é diferente e muito mais corajoso. Ela vê o monstro e decide, com uma coragem que beira a loucura, procurar a criança assustada que há lá dentro e que nunca foi salva por ninguém.
Naquela casa perfeita o suspense não nasce de sangue — nasce do som do vidro a partir, que é muito mais difícil de ignorar.
A Coreia dá-nos isto: o mal não como caricatura, mas como herança. Como estigma que se cola à pele desde o início. Três vilões, três formas diferentes de ser monstro: o pai que o criou, o homem cujo nome roubou e ele próprio, que talvez não seja monstro nenhum — e essa incerteza é o que nos prende à cadeira dezasseis episódios seguidos.
No fim, a verdade não nos liberta. Pelo menos não primeiro. Primeiro destrói. E só depois, se tivermos sorte, é que nos deixa ser reais.
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