Se as sondagens de campanha servem de GPS para este desastre anunciado, a resposta honesta é: ninguém faz ideia do que vai acontecer, mas a comédia está garantida. E nós na plateia, como sempre.
A menos de dez dias das eleições, o que temos não é uma corrida democrática — é um engavetamento na VCI em hora de ponta, com cinco egos amachucados a discutir quem tem a ambulância mais bonita.
Damos conta que é desta que "o sistema" pode perder e da fragmentação como fatalidade nacional. São cinco candidatos empilhados entre os 16% e os 21%, como sardinhas azedas numa lata mal fechada. Uma margem tão ridícula que a passagem à segunda volta pode decidir-se por um erro de arredondamento estatístico ou pela qualidade dos salgadinhos servidos no último comício.
Ventura lidera com uns 20%, esse triunfo moral de quem consegue gritar mais alto numa sala de surdos. É o vilão que todos querem defrontar porque perde contra qualquer um na segunda volta. O antagonista útil, a ameaça de plástico que justifica o voto de gente que detesta escolher mas adora sentir-se heroica por fazer o mínimo.
Seguro — esse nome que é um oximoro ambulante — apela ao "voto útil" da esquerda como quem acena a última boia no Titanic. Quer convencer-nos de que só ele impede o caos — essa palavra mágica que dispensa argumentos. Mas que ninguém pergunte o que fez quando teve poder para além de aquecer cadeiras e acumular derrotas elegantes.
Gouveia e Melo, o Almirante-vacina, começou como o messias inevitável mas vai murchando como alface esquecida no frigorífico. Ainda assim, se chegar à segunda volta, esmaga tudo com aquela eficiência militar que tanto reconforta o português em pânico. Porque não há nada que este país adore mais que fardas quando precisa de alguém que mande nele.
Cotrim de Figueiredo vai subindo nas sondagens à boleia de quem ainda acredita que liberalismo é resposta para alguma coisa que não seja o lucro dos amigos. Mas tem bom aspecto, não parece ter um Santana sem pescoço por amigo e seria presenciavel na fotografia.
Marques Mendes, o comentador que queria ser Rei e descobriu que falar para a câmara ao domingo é bem mais confortável que andar de coturnos pelo país gelado a fingir que gosta de povo. Está em quinto lugar, provando que carisma televisivo não paga despesas de campanha nem tira portugueses do sofá em janeiro.
A conclusão sem vaselina é que
teremos provavelmente uma segunda volta entre Ventura e um "Candidato Sério" do costume — seja o que hesita cronicamente, o que se põe em bico de pés, o fotogénico ou o que tem medalhas no peito. O duelo épico entre a taberna e o quartel, entre quem berra populismos e quem recita tecnocracias. Entre o insulto e a indiferença.
A única certeza absoluta? Ninguém sabe, as gráficas que imprimem boletins vão lucrar obscenamente e nós, os figurantes deste teatro democrático, continuaremos a escolher entre medos embrulhados em promessas. Nunca entre futuros. Porque futuros exigiriam imaginação e isso não é bem a nossa especialidade nacional.
Sem comentários:
Enviar um comentário